Quem parte primeiro, senhores?

A convivência do novo líder do PSD com o velho governo do PS deve ser olhada como uma corrida de metas separadas. António Costa terá de cuidar o seu governo, de modo a proteger o seu estatuto na Europa e o seu capital interno, em caso de obrigações presidenciais, ou arrisca-se a entregar São Bento à oposição quando deixar de ser primeiro-ministro. A sua é uma corrida de saída, com todas as cautelas a que as saídas obrigam em política, em particular numa situação de crise como a que se antevê. Mário Soares saiu de Belém com um sucessor do seu partido na presidência e um primeiro-ministro do seu partido no governo; um feito difícil de repetir em 2026, precisamente trinta anos depois.

A pista de Luís Montenegro é outra; não de transição, não de evasão, mas de preservação no tempo. Trata-se de um corredor de sprint forçado a uma maratona ("2026", dizem os seus cartazes), sujeito a desgastar-se a resultados eleitorais (o PS não perde uma eleição desde 2015) e ao calvário da oposição a uma maioria absoluta (o choradinho contra a "extrema-esquerda" prescreveu).

Além de tudo isso, Montenegro tem uma desvantagem no PSD que Costa não sente no Partido Socialista. O PS dificilmente parte. Isso confirmou-se na gestação da "geringonça", em que Assis e Sousa Pinto estiveram sozinhos contra o Adamastor do poder; e, mais recentemente, no recuo e pedido de desculpas de Pedro Nuno Santos após desautorizar o primeiro-ministro sobre o novo aeroporto. Por mais que um governo recheado de sucessores torne a coordenação política uma impossibilidade, Costa não deixa de ser "o chefe". Manda. Montenegro, sem a autoridade de quem governa, lidera um partido em inevitável rebuliço. Dois minutos depois de Carlos Moedas ser eleito conselheiro nacional encabeçando a lista montenegrista, estava nas televisões a dizer que aceitara o convite "independentemente de Montenegro". "É um cargo não-executivo", relembrava, provando que a união entre sociais-democratas é sempre mais leve do que literal.

Montenegro tem uma desvantagem no PSD que Costa não sente no Partido Socialista. O PS dificilmente parte. Isso confirmou-se na gestação da "geringonça".

A tendência do PSD à fratura é evidente nessa ânsia constante pelo "próximo", mas não só. Em dossiers mais estruturais, como a regionalização, qualquer posição assumida pela direção quebraria o partido em três - o que explica a tentativa de Montenegro de adiar o referendo e a tentação de Costa de realizá-lo, como se ouviu ontem, na comissão nacional socialista.

Nas relações com os partidos das suas respetivas franjas, o PS também mantém uma imunidade ao modelo que o PSD não alcançou. Se os socialistas alguma vez necessitarem novamente do Bloco de Esquerda e do PCP para governar, nem os seus protagonistas, nem a comunicação social, nem o seu eleitorado suscitarão problemas. O PSD, por outro lado, está longe de conseguir esse consenso no que toca a futuras alianças com o Chega. Jorge Moreira da Silva, candidato à liderança há dois meses, foi contra o acordo que permitiu ao PSD governar nos Açores. 27% do partido concorda com ele. E, daqui a um ano, na Madeira, o dilema pode repetir-se.

A interrogação do duelo Costa vs. Montenegro, tanto quanto os resultados nas eleições até às Legislativas, que não serão poucas, é esta: Quem parte primeiro, cavalheiros? Costa, com quase uma década de governação, uma recessão à porta e uma equipa de ministros que se despreza? Ou Montenegro, com um partido internamente insano, duas novas forças concorrentes à sua direita e um distanciamento da sociedade que não se resolve de um dia para o outro?

O nosso futuro terá muito a ver com isto.

Colunista

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