Queixem-se do populismo!

Em fila para a vacina, vemo-los armar os anzóis, que há mais peixe graúdo a disputar a lota dos interesses. Tarde e más horas, com eleições à vista, os partidos vão tentar, nos próximos dias, chegar a um acordo para emendar a lei eleitoral autárquica que os dois maiores fizeram aprovar no verão passado, criando dificuldades acrescidas às candidaturas independentes. A pressa daqueles é filha do medo de que estas criem o seu próprio partido e ameacem o cartel dos instalados.

Apesar dos obstáculos que ainda tolhem a participação cívica e eleitoral dos cidadãos, os movimentos locais de independentes têm vindo a crescer desde que a lei entreabriu as portas a tais candidaturas. Se em 2005 conseguiram eleger seis presidentes de câmaras, nas últimas eleições autárquicas já eram 17, enquanto nas assembleias de freguesia são já a terceira força nacional, ainda que dispersa, mas ameaçando o tradicional monopólio partidário.

A abstenção cada vez mais elevada, a desconfiança crescente entre cidadãos e partidos, o distanciamento entre eleitores e eleitos, e a cada vez mais reduzida militância deveriam prevenir todos, e em particular os partidos, para a urgência de uma reforma séria do nosso sistema político e eleitoral, tornando-o mais transparente, mais acessível e próximo dos cidadãos. Debalde! Os tradicionais só pegam de empurrão.

A ação política profissionalizou-se, e os partidos funcionam hoje como aquelas grandes empresas onde não há diálogo nem democracia interna, e onde os chefes, mais preocupados com a sua reputação e imagem, vendem expectativas quando não ilusões - e à qualidade do seu produto preferem a perceção que se tem dele. Daí a obsessão pela narrativa. Só que, entre a oferta e a procura, o excesso de narrativas delapida o valor político das propostas, em geral, porque são de duvidosa qualidade.

Nas democracias modernas, os partidos nasceram e medraram como mediadores entre a sociedade civil e o próprio Estado. Mas têm acabado a ocupá-lo e a confundir-se com a própria burocracia das administrações central e local, que invadem cada vez que chegam ao poder, distanciando-se dos cidadãos que afirmam representar. Os partidos dos nossos dias, ou as suas caricaturas, não são um elo entre a sociedade e as instituições. São agências de interesses e relações públicas para satisfazer clientelas e dedicadas ao controlo de danos. Daí a crescente erosão na base das formações políticas tradicionais - cá, como em toda a Europa.

Ainda vamos a tempo de emendar a mão. A começar, por exemplo, na lei eleitoral para as autarquias, que volta a ser alterada oito meses apenas após a última revisão. Sabemos que não há democracia sem alternativas e sem a existência de partidos políticos respeitados pelos cidadãos, capazes de inspirar confiança em vez do circo e do desassossego. Seria bom que os candidatos lidassem, ao menos, nos mínimos de sensatez e inteligência, com os problemas que afetam as suas terras, as suas cidades, pensando sempre nas gerações futuras. Falem com pessoas normais, auscultem os seus conflitos ou anseios, e ouçam. Depois, bem, depois continuaremos a ouvir dizer que políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos - pelo mesmo motivo.

Jornalista

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