Que tal um samba, Chico?

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De onze sobram dois para uma segunda volta decisiva, em 30 de outubro. Até lá, o Brasil continua adiado, em suspenso e mais dividido que nunca sobre o rosto presidencial que vai liderar um país em profunda crise, mas que é a maior economia da América Latina e uma das principais reservas do mundo em recursos essenciais, alimentares e energéticos. O atoleiro não serve ninguém.

Lula apostou na vitória à primeira volta, ficou perto dela (48%, quase 57 milhões de votos), mas não o bastante. E, como qualquer atleta, sabe que não pode distrair-se a celebrar em público antes de cortar a meta, não vá o outro ultrapassá-lo nos últimos metros. Bolsonaro parte para a segunda etapa a cinco pontos de distância, ainda assim numa posição mais vantajosa que os 10 pontos de desvantagem que lhe atribuíam as sondagens. A agressividade e o discurso do combate de casta penetraram fundo no ambiente político brasileiro, e Bolsonaro mostra que não está acabado. Prepara os filhos para darem continuidade aos seus projetos e, se a votação final não lhe corresponder, a estratégia é a de ensaiar uma saída que lhe permita o regresso.

Mais quatro semanas de campanha não expõem apenas dois candidatos, mas duas formas radicalmente distintas de entender a presidência de todos os brasileiros. Há quatro anos que o país suporta uma perigosa deriva autoritária. A desastrosa gestão de Bolsonaro perante a pandemia (era "uma gripezinha") saldou-se por quase 700 mil mortos, um recorde continental, enquanto os ataques do presidente ao sistema de urnas eletrónicas e aos próprios tribunais superiores, antecipando a denúncia de fraudes, acentuaram a deterioração da credibilidade das instituições federais. Também a presença crescente de militares em postos-chave do governo, e o papel de guardião dos resultados eleitorais que o presidente entregou ao exército, encorajaram até rumores de golpe de estado. Isto, enquanto no plano internacional o Brasil se afastou dos seus vizinhos, deixou de ter voz e contar entre as maiores potências emergentes, e viu projetar para o mundo a imagem de um presidente xenófobo, homofóbico, grosseiro, desqualificado, enfim, uma má cópia do seu ídolo norte-americano, Donald Trump.

Lula ainda tem espaço para crescer e somar, e depende apenas de si próprio, abrindo caminho ao diálogo político com as forças moderadas que não o apoiaram na primeira volta. O antigo metalúrgico foi duas vezes presidente, conhece melhor que ninguém as elites brasileiras, tem equipas para formar governo, tem o calo de ter lidado com várias crises graves, e mantém de pé a promessa de que não o move o rancor, o desejo de vingança política por aqueles 20 meses que passou na prisão, condenado por corrupção na chamada Operação Lava Jato. "Vamos a restaurar a paz e a democracia", garantiu o antigo presidente no momento de votar, anteontem. E os brasileiros bem merecem essa paz prometida, depois de quatro anos de desprezo oficial pelas instituições democráticas e pelo aprofundamento das desigualdades que encontram ali o seu rosto mais escandaloso.

Num mundo que ainda guarda as máscaras da pandemia e mergulhado agora na incerteza de uma guerra na Europa, o regresso do Brasil à cena internacional é tão urgente como imprescindível. Se o próximo presidente conseguir alguma acalmia social, este país de dimensões continentais, que fala português e com uma economia que está entre as 15 maiores do mundo, tem todas as condições para se converter num claro protagonista regional e em ator global de peso. Lula, que demonstrou no passado qualidades e apego à boas formas da diplomacia, parte para a segunda volta em vantagem e dele se espera agora que trabalhe no mesmo sentido. O mundo precisa de um Brasil democrático, menos desigual e mais próspero.

Jornalista

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