Quantos likes tenho?

Depois de publicar um post numa rede social dá por si a contabilizar os likes, as partilhas ou as visualizações a cada três segundos? Verifica o número de "amigos" e de seguidores a toda a hora? E parece que o seu bem-estar depende disso? Então este artigo é para si.

Sabemos que as redes sociais desempenham um papel muito importante na vida de todos nós, potenciando sentimentos de pertença e ajudando-nos a sentir como parte integrante de um todo. Ao mesmo tempo, quando nos focamos demasiado nestes números que parecem medir o impacto social daquilo que partilhamos, isso pode ser um sinal de alerta importante.

Também as crianças e jovens parecem, por vezes, demasiado centrados nestas questões, que rapidamente passam a ser uma preocupação recorrente e intrusiva, associada a um aumento de emoções como a tristeza, a raiva ou a ansiedade.

É fundamental estarmos atentos a esta situação e perguntarmos a nós mesmos: esta preocupação intensa com a reação dos outros face àquilo que partilho reflete algum tipo de necessidade da minha parte? Se sim, qual? Será que preciso desesperadamente de me sentir aceite e integrado? E porquê? Para quê? De que modo esta sensação de integração me ajuda a sentir melhor ou mais competente? Em que medida a forma como me vejo depende da opinião de terceiros que nem sempre conheço? E como interpreto o facto de uma publicação ter poucas interações? Será que o associo a ser pouco amado ou valorizado? Estarei a fazer interpretações distorcidas e erróneas que apenas contribuem para que experiencie emoções desagradáveis?

Se formos honestos nas respostas que dermos a estas questões, talvez possamos descobrir algo sobre nós próprios, sobre o nosso autoconceito e a nossa autoestima. O autoconceito é uma imagem compósita do que pensamos que somos, do que pensamos que conseguimos alcançar, do que pensamos que os outros pensam de nós e do que gostaríamos de ser. Já a autoestima está relacionada com a avaliação pessoal que fazemos sobre o nosso autoconceito, ou seja, diz respeito ao grau relativo de valor ou aceitação que consideramos que o nosso autoconceito tem.

Este valor ou, dito de outro modo, a diferença entre o nosso "eu percecionado" e o nosso "eu ideal" está intimamente ligado às experiências de vida ao longo de todo o desenvolvimento, pelo que talvez ajude fazer uma viagem no tempo e regressar à infância e adolescência... o que me diziam as pessoas mais importantes para mim?

Como me sentia quando ouvia isto? Em que medida acreditava ou ainda acredito naquilo que ouvia? Que impacto tem isso em mim hoje, que sou adulto? Que comportamentos tenho hoje que podem ser um reflexo destas experiências mais precoces?

Começámos por falar de "likes" e visualizações nas redes sociais e acabámos a falar de autoconceito e autoestima. Quando a utilização que fazemos das redes sociais surge associada a ansiedade, tristeza, raiva ou outra emoção mais desagradável, tal significa que deixou de ser uma utilização recreativa e vantajosa e passou a ter contornos mais problemáticos. Se assim for, é bem possível que a forma como nos vemos nos ajude a perceber um pouco melhor porque vivemos esta situação.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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