Quando uma mãe esfaqueia um filho por este não parar de jogar

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Uma mulher de 40 anos foi detida em Lisboa, após ter esfaqueado o filho de 19 anos que não parava de jogar videojogos. A mãe confessou o crime, alegando ainda ter-se sentido insultada e injuriada pelo filho. Esta notícia, apesar de vaga, conduz-nos a uma reflexão sobre o comportamento de jogo online e sobre as práticas parentais.

Quando utilizados de uma forma saudável e responsável, os benefícios dos videojogos podem ser muito diversos, na medida em que estimulam a atenção e a concentração, a capacidade de reação, a criatividade e os processos de tomada de decisão. O ambiente de jogo permite ainda um processo de aprendizagem com menos críticas e juízos de valor, potenciando uma sensação de independência e controlo sobre a situação. Ao mesmo tempo, estabelecem-se relações sociais, minimizando sentimentos de solidão ou de exclusão social.

Os jogos de vídeo online podem ser recreativos, educativos e positivos... ou muito destrutivos. Não dormem, nunca acabam e há sempre alguém, algures, online e disponível para jogar. Esta total disponibilidade pode ser muito sedutora e conduzir a um comportamento abusivo ou mesmo a uma situação de dependência.

O comportamento excessivo de jogo pode levar a um isolamento face ao mundo real. Imersos no seu mundo virtual, muitos jogadores acabam por distanciar-se de família e amigos (os reais), desinvestir no estudo e outras atividades sociais. Frequentemente, observa-se ainda dificuldade na regulação dos impulsos, obesidade, quadros depressivos e ansiosos.

Nas situações de dependência verifica-se uma incapacidade persistente em controlar o comportamento excessivo de jogo, apesar dos problemas sociais ou emocionais associados. A perturbação de jogo pela internet foi definida em 2013 (1) e envolve o uso persistente e recorrente da internet para o envolvimento em jogos, que causa sofrimento ou mal-estar clinicamente significativo. Também a Organização Mundial de Saúde definiu a internet gaming disorder (2) como um envolvimento excessivo e compulsivo com os jogos de vídeo, resultando num sério comprometimento a nível pessoal, social, académico ou ocupacional.

Uma vez que muitos adultos com problemas relacionados com o jogo iniciaram este comportamento na adolescência, é fundamental apostar em abordagens preventivas para evitar a emergência deste problema, bem como investir em programas terapêuticos para casos de dependência. Mas para que estes programas de prevenção e intervenção sejam mais eficazes é crucial o envolvimento dos pais, da escola e de toda a comunidade, numa perspetiva sistémica. Porque se, por um lado, temos um comportamento de jogo desajustado, por outro, temos pais que nem sempre conseguem regular as suas emoções e impulsos, acabando por adotar práticas parentais mais punitivas. O que apenas agrava o problema.

(1) Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5; 2013).

(2) Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-11; 2018)

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal