Quando os generais escrevem cartas abertas

Uma sondagem divulgada nesta semana pelo IFOP, o prestigiado instituto francês de opinião pública, diz-nos que 86% dos franceses consideram a segurança interna como uma questão central, que influenciará o resultado da eleição presidencial de maio de 2022. Por outro lado, em julho de 2020, 71% da população adulta considerava que a França atravessa um processo de declínio. Declínio é um conceito vago, passível de várias interpretações. Mas revela um sentimento de mal-estar social, que deu origem aos "coletes amarelos" e tem sido manhosamente aproveitado pela extrema-direita, sobretudo por Marine Le Pen.

Um outro inquérito de opinião, efetuado pela Fundação Jean-Jaurès, uma instituição com ligações ao Partido Socialista, permitiu saber que uma boa parte dos cidadãos franceses estima que há desordem a mais no país. Mais concretamente, 82% pensam que a França precisa de um líder forte, capaz de restabelecer a ordem pública e a autoridade do Estado. O presidente Emmanuel Macron não deve ter encontrado nenhum tipo de conforto nesses estudos de opinião. As imagens que ficam são de uma nação mergulhada na indecisão política e sensível à narrativa da extrema-direita.

Foi neste contexto que apareceu há dias uma carta aberta, assinada por 24 oficiais generais na reserva e por uma centena de oficiais superiores e mais de mil militares de outras patentes, com um ou outro ainda no ativo e o resto, reformado. A carta, publicada na revista ultranacionalista Valeurs Actuelles, parecia querer servir de alavanca para reforçar as posições da direita radical. Foi vista pelo governo e por muitos com estupefação e como um apelo a um hipotético golpe de Estado.

O texto é um ataque ao que os seus autores designam por falta de coragem da classe política para enfrentar o "caos" existente. Mais afirmam que essa fraqueza pode levar os seus camaradas militares no ativo a uma "intervenção para defender os valores civilizacionais" da França. A palavra intervenção não permite ambiguidades. Essa é a parte mais explosiva da missiva, que deixou a ministra da Defesa e muitos democratas em ebulição. Na Europa, em 2021, uma sugestão assim é inaceitável, para mais vinda de um número tão elevado de oficiais que ainda recentemente serviam nas fileiras.

"A hora é grave, a França está em perigo, é ameaçada por vários riscos mortais." Assim abre o documento, no estilo já gasto de quem pinta o caos para depois afirmar que é altura de salvar a pátria. Os autores referem-se ao que chamam a desagregação da sociedade francesa, ao que consideram ser um alastramento do ódio entre várias secções da população e atacam o "islamismo e as hordas dos arrabaldes", ou seja, os imigrantes de origem não europeia que vivem sobretudo nos dormitórios pobres que são os arredores das grandes cidades. A imigração é aliás um dos grandes cavalos de batalha dos nacional-extremistas, em França como noutros países europeus. É um tema que preocupa mais as pessoas com menores rendimentos e os reformados com pequenas pensões. As referências à imigração trazem dividendos eleitorais. Marine Le Pen sabe isso. É aliás nessas categorias sociais, que outrora votavam à esquerda ou em movimentos populares, que ela encontra uma boa parte do seu apoio. Os dados do IFOP mostram que 40% dos operários e outros assalariados de condição modesta apoiam Le Pen

O assunto foi pouco falado fora do hexágono francês. É verdade que a pandemia, a Rússia, o escândalo do sofá, o futebol e a preocupação com a descida das audiências da Cristina não deixam espaço para outras notícias. Mas a carta, reveladora da agitação política que se vive em França, tem uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais. Se no próximo ano Emmanuel Macron perdesse a eleição presidencial e a extrema-direita tomasse conta do poder em Paris, o impacto desse terramoto político sobre o futuro do projeto europeu seria incalculável. Por isso, enfraquecer Macron, como alguns o fazem aqui e acolá, é um erro muito grave.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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