Quando lutas com um porco

Ficas sujo e ele delira; sabemos. No entanto, e a tomada do Capitólio demonstrou-o a quem acaso estivesse ainda distraído, a questão já não é se lutas, é como. Como lutar para derrotar a mentira, a calúnia, o ódio, as teorias da conspiração. Como lutar para salvar a democracia - para nos salvarmos.

A democracia é frágil - já não nos lembrávamos, ou nunca soubemos, quão frágil. Acreditámos que podia resistir a demagogos autocratas porque acreditámos que toda a gente se lembrava do que é um demagogo autocrata e daquilo a que demagogos autocratas conduziram e, mais ingenuamente ainda, que ninguém queria que tal acontecesse de novo; acreditámos que havia adquiridos civilizacionais pelo menos na Europa ocidental e na sua extensão, os EUA - sim, somos assim eurocêntricos - quanto ao inegociável dos direitos humanos.

Aprendemos que não: na verdade deveríamos saber que não desde sempre, porque as pessoas que seguiram os demagogos autocratas do século XX até ao mais absoluto horror não eram diferentes de nós, como não eram diferentes de todas as outras que ao longo da história, em situações de maior ou menor ignorância, de maior ou menor injustiça, de maior ou menor caos, seguiram outros demagogos para outros horrores.

Na verdade, se quisermos ver a verdade, o tempo de paz, de relativas justiça social e abundância que vivemos na Europa ocidental há pouco mais de setenta anos é a grande exceção não só na história da Europa como humana. Um milagre precioso e, como estamos a ver, imensamente frágil. E imensamente frágil porquê? Porque a democracia foi pensada como se fosse evidente que ninguém se serviria dela para a destruir; conta com a civilidade e o bom senso de todos.

Não conta por exemplo com a possibilidade de o mais alto eleito minar durante anos a credibilidade das eleições e quando derrotado acabar a encorajar uma multidão a atacar o parlamento, recusando durante mais de uma hora enviar auxílio para a polícia que o defende. Ninguém previu que tal pudesse acontecer. Aliás, as leis que existem para defender a democracia de perversões no seu seio - como o nosso decreto 64/78, que proíbe as organizações fascistas, ou a possibilidade de impeachment, nos EUA - são de tal modo exigentes nas condições e condicionalismos que acabam por ser muito difíceis de ativar. É preciso acontecer o total desastre para que se coloquem as trancas à porta - e quando o desastre aconteceu é por definição tarde de mais.

Se alguma coisa Trump nos ensina é que sim, a tentativa de total subversão das instituições democráticas através da chegada ao poder por eleições democráticas pode acontecer. E já começou a acontecer aqui.

E começa sempre da mesma forma, tanto mais exasperante quando passa pela cópia descarada dos truques dos demagogos autocratas do passado: desde logo, pela ideia de que só há um campo que "diz as verdades", invariavelmente acompanhada pelo debitar de falsidades em catadupa, pela criação de um culto de personalidade de alguém que é apresentado como "antissistema", "antipolítica", espécie de "puro" entre os "podres", por uma divisão extremada de campos entre o nós e o eles. E pelo designar de um inimigo (os judeus, os imigrantes, os refugiados, os ciganos, os negros).

Podemos pôr cruzes em todos estes campos para Trump como para a versão nacional. Por mais que nos exasperemos com a aldrabice de apresentar como "antissistema" um milionário que não fez mais nada na vida senão ser o pior do "sistema". Ou um político que segundo o próprio se inscreveu na JSD ainda adolescente para chegar, em 2017, a candidato autárquico do PSD, que quis fazer carreira como funcionário público, tanto como inspetor da Autoridade Tributária como professor de uma universidade pública (a Nova), e usou tudo o que lhe interessou do "sistema" que diz querer destruir.

Desde cursar a escola pública com que o seu programa político quer acabar e candidatar-se a uma bolsa de doutoramento de dinheiros públicos de muitos milhares de euros - para fazer uma tese que é o absoluto avesso do que agora propala - até à licença sem vencimento que pediu do seu cargo na Autoridade Tributária, e que lhe garante a manutenção, até hoje, de um vínculo à máquina do Estado enquanto anda por aí a dizer que esta tem gente a mais. Passando pela militância no clube de futebol mais popular, com grande proximidade ao seu dirigente de mais de uma década - este acusado num processo de alegada corrupção de magistrados e cujo grupo económico é responsável por centenas de milhões de perdas do Novo Banco -, pelo alistamento nas fileiras do diário mais frequentado e do seu canal de TV e pela colaboração numa consultora financeira especializada em "planeamento fiscal", ou seja, em encontrar formas de que sejam cobrados menos impostos a quem pode pagar esse serviço (e onde esteve mais de seis meses em acumulação com o cargo de deputado, quando na véspera das legislativas tinha jurado ficar em exclusividade se fosse eleito, em consonância com a obrigação de exclusividade que o programa do partido propugna). Onde é que isto é ser antissistema?

É para rir, e no entanto descaramento é mesmo o que não falta ali. Mais a crendice dos seguidores, que se excitam com a cassete sempre igual do seu ídolo. Porque é uma cassete, e sempre igual: vimos isso nos debates nas TV. Um pot-pourri de "ciganos do rendimento mínimo", "invasão de refugiados" e "anda meio país a pagar impostos para outro meio que não quer trabalhar", mais "é preciso emagrecer o Estado", "precisamos da prisão perpétua" e mais umas afirmações terroristas do género "não quero ser o presidente de todos os portugueses" e "quero a ditadura das pessoas de bem". Isto tudo em torrente imparável e histriónica, atropelando ou tentando atropelar o que os contendores dizem.

Ok, está descrito, pensa quem me lê: como é que combates isso num frente-a-frente, e mais a mais em 30 minutos, em que não há tempo para desconstruir as patranhas com números e factos, em que moderadores na maioria dos casos incapazes ou mesmo cúmplices beneficiam o infrator porque acham que "dá audiências" deixá-lo rebolar na lama e aspergir tudo em redor? Quem escolheu o modelo dos debates tinha de saber o que isso iria implicar e implicou. Como se viu na extraordinária entrevista que o Observador fez em março de 2020 ao líder do Chega, este mete os pés pelas mãos quando questionado com tempo sobre o seu programa político - mas tem de haver tempo para tornar claro que não quer nem sabe responder, e que a sua retórica de vendedor nada vale perante perguntas fundamentadas e dados.

Num debate político televisivo - no parlamento é muito diferente porque há tempos de intervenção e micros fechados -, a prestação do líder do Chega, como a de Trump, resume-se sobretudo a falar por cima do adversário, debitar mentiras, frases feitas que nada querem dizer e provocações mais ou menos abjetas consoante o alvo (há alvos que sabe não dever atacar com tanta virulência, como Marcelo ou Tino).

Enfrentá-lo é um exercício de resistência que implica entrar o menos possível em diálogo, controlar a expressão corporal (mais fácil de dizer que de fazer) e trazer a lição bem estudada no que respeita aos seus sempiternos "argumentos" - como fez por exemplo um surpreendente Tiago Mayan, ao contrapor ao valor anual dos gastos em Rendimento Social de Inserção o calote do amigo Luís Filipe Vieira ao Novo Banco e ao dizer "a mim não me interessa a etnia de um português" (a frase mais notável de todos os debates a que assisti). Mas é um exercício que implica não ter medo de, a determinado momento, falar grosso e chamar a nojeira e o inadmissível pelo nome, correndo o risco de ser salpicado no lamaçal. E isso na verdade ninguém foi capaz de fazer. Ana Gomes andou lá perto ao reagir ao miserável ataque a Paulo Pedroso, mas era do presidente em exercício que se esperava e exigia essa capacidade, e falhou.

Confrontado com uma foto consigo no Bairro da Jamaica e várias pessoas negras, incluindo uma criança, sendo acusado de ter ali ido confraternizar com a "bandidagem", e ao não reagir à calúnia racista, assim como ao dizer que a sua direita não é a mesma do contendor sem no entanto definir essa direita como deve ser definida, Marcelo falhou na defesa dos valores essenciais da democracia e do Estado de direito. Falhou no que não podia falhar - e menos ainda quando do outro lado do Atlântico, naquele mesmo dia e àquela mesma hora, se tentava, em nome de um dos modelos daquele homem ali à sua frente, derrubar uma das democracias mais antigas do mundo.

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