Quando a oligarquia angolana salvou Portugal

José Eduardo dos Santos governou Angola durante 38 anos com mão de ferro, prolongando a ditadura num país em guerra e que não soube transformar numa democracia quando chegou a paz.

Os angolanos viveram décadas em guerra, primeiro pela liberdade contra o país colonizador, depois pelo poder contra inimigos internos e apoio de potências estrangeiras de ambos os lados. É claro que os mais velhos o que mais valorizam é a paz e olham para José Eduardo dos Santos como um salvador, mas quem cresceu na paz, sonhando com um progresso que a poucos tocou num país que extraiu do solo anualmente dezenas de milhares de milhões de euros, só pode olhar para a morte de JES para perguntar porque é que, apesar de todas as promessas, nada de substancial mudou com a chegada ao poder de João Lourenço.

As seculares relações entre os dois países, o peso político e económico de Angola no contexto africano, o papel de Portugal na paz angolana, não só nos acordos de Bicesse, mas também nos esforços diplomáticos de Cavaco Silva para ajudar Angola a ultrapassar a influência soviética quando caiu o Muro de Berlim, fazendo com que Luanda ganhasse a tolerância de Washington, interessados em beneficiar da economia extrativa que ainda hoje perdura no país, fizeram com que a morte de Dos Santos fosse tratada com grande relevância no nosso país.

Os milhões angolanos aqui gastos revelam a hipocrisia com que muita gente aponta o dedo à família Dos Santos.

É claro que por cá nunca se fez um esforço para compreender que um país que foi colonizado durante séculos, que nunca teve capitalistas, precisou de os inventar para poder funcionar no sistema que tinha vencido o estatismo soviético. Criou capitalistas no MPLA e na família e por ter preferido as relações pessoais aos méritos de quem pudesse afirmar-se como empresário, de quem pudesse fazer crescer o capital, acabou por criar apenas milionários pouco interessados em ajudar o seu povo a ultrapassar a miséria.

Não é preciso um grande esforço para perceber que a paz angolana acabou por servir, sobretudo, para o dinheiro do país, nas mãos da oligarquia, poder circular livremente por outros países.

Os milhares de milhões investidos, no BCP, no BPI, na Galp, na NOS e em muitos outros negócios mais pequenos, gastos em Portugal, só revelam a hipocrisia com que muita gente aponta o dedo à família Dos Santos e aos seus generais, ao mesmo tempo que aceita o dinheiro sujo angolano para salvar negócios de capitalistas portugueses.

Quando Portugal passou mal, com a troika a dizer-nos o que podíamos e não podíamos fazer, tínhamos a liberdade de aceitar ou não aceitar o dinheiro que chegava de Luanda e de Pequim. Como mais ninguém punha cá um tostão para nos ajudar a pagar as dívidas, aceitámos ser temporariamente uma colónia de Angola e da China.

Nunca percebi porque há tanta gente em Portugal que, tendo participado ativamente nestes negócios, se acha melhor do que os oligarcas que os salvaram.

Jornalista

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