Quando a crise é séria, a União Europeia senta-se na mesa das crianças

Muitas são as questões internacionais que preocupam a União Europeia neste início de década, nomeadamente a pressão migratória, a evolução de África e dos seus estados, os desafios no Golfo, a situação na Líbia e na Venezuela, o papel da China e do Indo-Pacífico, o relacionamento com a América Latina, com a Turquia e com o Reino Unido. Mas a mais imediata e a mais preocupante ameaça é a situação no leste da Europa, como mostram os comunicados sucessivos do responsável pela política externa da UE sobre a presença russa nas fronteiras da Ucrânia, destino da sua primeira viagem oficial de 2022 e demonstram as agendas das recentes reuniões de ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da UE.

Mas se Bruxelas está preocupada e ocupada com a crescente instabilidade nas suas fronteiras a leste, o resto do mundo não parece muito preocupado com o que a União Europeia pensa. Na última semana a Rússia, que deseja limitar a presença da NATO nos países da sua vizinhança próxima e ameaça invadir a Ucrânia se necessário for, teve reuniões com os Estados Unidos, com a NATO e com a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa. Quanto à União Europeia, foi sendo informada do que se passava mas ficou à margem do processo.

É verdade que estamos perante uma questão de segurança e defesa e que a UE está ainda a desenvolver os seus instrumentos e processos políticos para ter capacidade militar, nomeadamente a chamada Bússola Estratégica, que deverá ser aprovada neste ano e que poderá trazer lógica, coerência e meios ao papel que Bruxelas deseja ocupar na Política de Defesa e Segurança Comuns.

Quer isto dizer que a UE não tem um papel a desempenhar nas crises do mundo? Se considerarmos o que se designa pelo "Triplo-Nexo Segurança-Humanitário-Desenvolvimento", que estabelece uma ligação entre os desafios do crescimento económico, do desenvolvimento social, da sustentabilidade ambiental e da boa governança com as crises de segurança e as crises humanitárias; se nos lembrarmos que a ONU e o Banco Mundial defendem que a maior parte das crises têm origem em problemas de desenvolvimento e/ou legitimidade do poder político; e se pensarmos que a União Europeia é um dos mais importantes parceiros de desenvolvimento no planeta, poderemos afirmar que a UE tem um papel internacional de relevo na prevenção e na gestão das crises, contribuindo para que as falhas e dificuldades dos processos de desenvolvimento não se agudizem ao ponto de se transformarem em crises de segurança que necessitam de intervenções militares.

Mas não devemos esperar que a União Europeia seja o que ainda não é e que não sabemos se alguma vez virá a ser: uma organização com capacidade, vontade e meios para contribuir para a gestão económica, política e militar da Europa e do mundo, o que alteraria a sua natureza maioritariamente civil e daria a Bruxelas um papel em áreas de soberania que até agora continuam reservadas aos Estados membros. Neste momento, o que sabemos é que quando os destinos da fronteira leste da Europa estão na balança, a União Europeia foi mandada para a mesa das crianças, longe da sala onde os adultos tomam as decisões.

Investigador associado do CIEP/Universidade Católica Portuguesa
bicruz.dn@gmail.com

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