Quando a caserna entra na política

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Vergonha alheia. É o que sentem muitos portugueses perante a campanha negra que Gouveia e Melo decidiu encetar contra outros candidatos às eleições presidenciais, num esforço para travar a queda nas intenções de voto. Não era o candidato da minha preferência, desde logo por não cumprir mínimos exigíveis de experiência política e de inteligência emocional. Ainda assim, sempre respeitei o seu legítimo direito à candidatura. Confesso, aliás, que observei a sua entrada na arena política com curiosidade genuína, na esperança de encontrar um ator novo, capaz de introduzir alguma frescura numa democracia fatigada. Meses depois, mais do que deceção, o sentimento que prevalece é o de repulsa pelo jogo sujo que o almirante na reserva decidiu protagonizar.

Em 2021, Gouveia e Melo afirmou esperar não se “deixar cair na tentação” da política, acrescentando que, se tal acontecesse, lhe dessem “uma corda para se enforcar”. Para que não subsistissem dúvidas, rematou com uma frase lapidar: “A democracia não precisa de militares.” Passados apenas quatro anos, tornou-se candidato e soldado de um exército de ressentimento que corrói a democracia por dentro. A incoerência, por si só, ainda seria perdoável. O problema é o péssimo serviço que está a prestar ao país – um sinal vermelho para muitos que, até há algum tempo, lhe eram simpáticos e ponderavam confiar-lhe o voto.

No último debate televisivo da pré-campanha, caiu definitivamente a máscara. Perante insinuações vagas, feitas de chavões e suspeições genéricas ao estilo de André Ventura, o visado, Marques Mendes, foi de uma clareza desarmante: “Diga um caso concreto. Um que seja.” Não houve resposta. Porque não havia resposta possível. Gouveia e Melo não tinha, como continua a não ter, nada de concreto a apontar, limitando-se a atirar a pedra e a esconder a mão. Esta demonstração de cobardia – ainda por cima vinda de um militar na reserva – provocou, legitimamente, vergonha alheia em muitos eleitores.

Ninguém sabe, afinal, o que Gouveia e Melo é politicamente. Já disse tudo e o seu contrário. Nos métodos, revelam-se traços preocupantes de um autoritarismo latente. Veja-se a palavra por que agora se apaixonou: “opacidade.” Um conceito vazio enquanto não for concretizado, mas que parece querer remeter a democracia para um escrutínio de inspiração estalinista, onde todos são suspeitos por defeito, a privacidade é relativizada e a devassa passa a regra. Curiosamente, quando se sente visado, o antigo almirante revela-se incrédulo. Saiu da caserna, mas a caserna não saiu dele.

O que prometia ser uma lufada de ar fresco transformou-se num erro de casting de grandes proporções. O discurso da pureza e do cordão sanitário face ao “sistema” é uma mentira insuportável. Eu não me deixarei enganar. Nem eu, nem muitos outros.

Professor catedrático

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