Putin e a nova ordem mundial

A chegada de uma nova ordem mundial e de um realinhamento entre a Rússia e a China já se antevia na reunião do dia 4 de fevereiro que juntou Putin e Xi Jinping.

Nesse encontro, foi decidido que "não havia limites" ao relacionamento entre a China e a Rússia. Os dois países comprometiam-se a conseguir uma "alta qualidade" nos domínios da cooperação na agricultura, na economia, na saúde e o incremento das exportações russas para a China particularmente do petróleo e do gás. E não faltou mesmo o desejo expresso de ambos os países construírem uma plataforma de transferências interbancárias alternativa ao SWIFT (engloba 11 mil bancos e 42 milhões de mensagens diárias), baseada na moeda chinesa, o remimbi.

No dia 24 de fevereiro, após ter mentido a todo o mundo, Putin invadiu a Ucrânia. O seu gigantesco exército, reconstruído com o dinheiro das exportações do petróleo e do gás para o Ocidente e assente num enorme mealheiro de 600 mil milhões de dólares, entrou num país soberano e com um profundo sentimento de nação livre e democrática.

Contudo as coisas não têm corrido bem a Putin. Os seus tanques, os seus grads, rockets lançados a partir de veículos, os seus smerchs, munições de fragmentação que rebentam mais tarde, não estão a conseguir vencer a tenacidade de um povo que tem o seu expoente máximo em Zelensky, hoje uma figura de dimensão mundial, símbolo da aspiração de um povo a um mundo livre e democrático, e com uma popularidade de 91% dos ucranianos de acordo com o estudo da Rating Sociological.

Putin acordou o mundo ocidental com a sua agenda imperialista e empedernida em conceitos estalinistas mais que ultrapassados. Conseguiu o quase impossível, a unidade dos países europeus, e o fim da neutralidade da Suíça, que se juntou à União Europeia e aos Estados Unidos na aplicação de sanções. E, até, a discreta Noruega enviou armas à Ucrânia quebrando a sua neutralidade desde os anos 1950.

Putin é hoje um homem praticamente só no contexto internacional. É a materialização do que de pior existe na humanidade. Não entendeu que o concerto das nações não quer guerras. A agenda mundial dá hoje prioridade à preservação do planeta, ao desenvolvimento de energias alternativas, a novas formas de organização económica que deem espaço ao combate à pobreza, em vez de gastar o dinheiro em artefactos militares.

E mesmo que as suas tropas ocupem a Ucrânia, Putin vai ficar com problemas para o futuro. É muito provável que um governo ucraniano no exílio venha a fazer-lhe a vida negra com um exército ucraniano na clandestinidade que, juntamente com uma população armada, transformará a Ucrânia num novo Afeganistão de malha urbana onde Putin partirá os dentes.

Isolado, internacionalmente, Putin tem a sua retaguarda desguarnecida. Há manifestações contra a guerra por toda a Rússia. Seis mil russos foram presos por se manifestarem. Dentro de algum tempo a sua economia estará fragilizada. O rublo desvaloriza diariamente, os bancos, como o Sverbanke Europa, vão à falência. A população corre para os bancos a levantar as suas poupanças, e a importante empresa Gazprom vê sair do seu corpo de acionistas empresas ocidentais tão poderosas como a Sheel ou a BP.

Com as suas reservas de moeda estrangeira congeladas, o Banco Central da Rússia é hoje obrigado a subir as taxas de juro provocando inflação e aumento de custo de vida para a população russa.

Para o futuro, Putin vai ter de enfrentar uma NATO em alerta e uma União Europeia que vai reforçar os seus sistemas de defesa, expresso já na atitude alemã de aumentar para mais de 2% a percentagem do PIB a gastar com armamento.
Putin falhou na sua agenda belicista. Não seguiu o exemplo da China que exerce o seu poder através de instrumentos económicos e financeiros, logísticos, e não com botas cardadas. E daí o seu prudente e sábio voto de abstenção no Conselho de Segurança da ONU que analisou a invasão da Ucrânia, distanciando-se assim da Rússia. Putin lançou o caos no equilíbrio financeiro das nações, pondo em perigo o contexto global das trocas comerciais e ameaçando a estabilidade dos mercados de consumo, exportação e importação, da Europa e dos Estados Unidos. E isso não interessa à China.

Com as mãos manchadas de sangue do povo ucraniano, que recebe a solidariedade do mundo, Putin é hoje um pária mundial que poderá vir a ser acusado de crimes de guerra.

Não começa bem a nova ordem mundial...!


Jornalista

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