Putin Apocalypse Now?

Esta sexta-feira é suposto que Putin fale no Parlamento russo para anunciar oficialmente a anexação dos territórios ucranianos ocupados de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson. Trata-se de tentar na secretaria o que o líder russo tem perdido no terreno. Anexações ilegais, não-reconhecidas pela comunidade internacional, feitas à margem do Direito Internacional em territórios que apenas estão parcialmente ocupados por Moscovo. E muito vazios de população.

A recente ofensiva ucraniana saldou-se num sucesso que obrigou Putin a desencadear uma operação de mobilização de 300 mil reservistas russos, que gerou manifestações em várias cidades russas e uma debandada generalizada de cidadãos. Cidadãos russos que não estão de acordo com a guerra, nem dispostos a dar a vida por aquilo que consideram ser uma causa perdida. Esta aventura em que Putin se meteu não lhe tem corrido bem. Derrotas vergonhosas no terreno militar, isolamento diplomático mundial acentuado, recentemente, pelo virar de costas da China e da Índia no apoio aos seus objetivos bélicos. Uma triste popularidade de facínora e criminoso de guerra isola-o cada vez mais na cena internacional. Putin é hoje um homem só com uma retaguarda política que pode estar, paulatinamente, a desfazer-se até à sua queda final. Nas cidades russas há manifestações contra a guerra, com cerca de 2600 cidadãos presos por protestos contra a mesma. As fronteiras, os aeroportos, enchem-se de jovens que não estão dispostos a dar a vida por uma loucura bélica onde não querem embarcar. Internamente, Putin parece ter os seus apoios a desvanecerem-se, restando-lhe apenas o pilar da componente militar que se tem mostrado incompetente no terreno. Os oligarcas que o rodeavam têm, inexplicavelmente, "saído" por janelas abertas, sem que haja explicações para estes "saltos no vazio"!

Depois destas anexações é bem possível que Putin procure uma enviesada justificação para o uso de armas químicas ou nucleares táticas na Ucrânia. O seu recente discurso deixou de novo uma alarmante ameaça de ataque nuclear. Não sabemos a quem, não sabemos onde. Deixou-nos, contudo, um aviso o qual diz não ser um bluff. As anexações deverão ser o justificativo para uma escalada da guerra que poderá incluir armas químicas e nucleares táticas.

Putin só conhece a linguagem da guerra e da violência. Entrou numa espiral bélica da qual não consegue sair. Na sua cegueira de conquista territorial, no seu objetivo arcaico de reconstrução de uma Grande Rússia que há décadas se desfez pela falência do seu projeto de sociedade, Putin pode vir a ser afastado pelos seus pares do FSB. Conforme assinalou Catherine Belton, jornalista correspondente vários anos em Moscovo," não me surpreenderia que alguém nos Serviços Secretos russos tentasse afastar Putin".

Os erros e os falhanços são demasiado flagrantes e destruidores para a Rússia. As suas Forças Armadas estão descredibilizadas e o seu alegado poderio militar está hoje "pelas ruas da amargura". Putin está a ser, politicamente, triturado pela determinação de um povo e pela sua componente militar que quer a liberdade, quer gerir os seus destinos, quer pertencer a um projeto político, social e financeiro que está nos antípodas do que é a Rússia. Os ucranianos estão determinados a serem cidadãos europeus. E convenhamos que, pelo modo como se têm defendido, pela sua coragem, merecem bem vir a ocupar um lugar no concerto das nações europeias.

Não podemos hoje ficar indiferentes ao perigo que Putin representa no contexto internacional. A sua aventura lançou o caos no mundo globalizado. Colocou incerteza na economia das democracias ocidentais, desconfiança nalguns dos seus tradicionais parceiros ideológicos. Putin é um pária mundial empenhado, estupidamente, em continuar uma guerra bárbara e fratricida.

Perante esta realidade admira-me, assim, o silêncio daqueles que tanto pediam a paz. Os que culpavam a NATO e a Europa, exclusivamente, pela responsabilidade da guerra. E agora! O que dizem perante a narrativa belicista de Putin, as suas ameaças nucleares, a mobilização forçada de milhares de jovens e reservistas? O que esperam para apoiar os milhares de manifestantes que em cidades russas protesto contra a guerra, sujeitos a enfrentarem anos e anos de cadeia? Será que já olham para Putin como um dos principais responsáveis pela guerra ou continuam a pensar que tudo isto continua a ser uma operação especial de desnazificação da Ucrânia?

Jornalista

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