O resultado de João Cotrim de Figueiredo na primeira volta das eleições presidenciais com mais de 903 mil votos, aproximadamente 16% , foi relevante, mas não autoriza a leitura estratégica que lhe tem sido associada. A ideia de preservar esse “capital político” através de um movimento, assenta numa interpretação discutível da natureza do voto presidencial.Os dados comparativos são claros: em 2021, a Iniciativa Liberal não ultrapassou os 134 mil votos nas presidenciais. Nas europeias de 2024, com Cotrim como cabeça de lista, obteve cerca de 358 mil votos. Estes números delimitam com razoável precisão o eleitorado liberal estrutural. O diferencial até aos 900 mil votos não resulta de uma súbita expansão ideológica do liberalismo, mas de uma conjugação circunstancial: rejeição de candidatos do centro-direita tradicional, recusa de André Ventura por parte de eleitores moderados e forte personalização da eleição presidencial. Estas não são eleições de transferência automática: são eleições de contexto, de perfil e de momento.Confundir um voto funcional (muitas vezes negativo ou defensivo) com uma adesão política duradoura é um erro analítico frequente e, neste caso, politicamente arriscado. Em 2031, o enquadramento será necessariamente distinto, tal como os candidatos, as clivagens e o próprio espaço da direita democrática. Acresce uma fragilidade conceptual do próprio Movimento 2031: apesar da designação cívica, não se trata de um movimento emergente da sociedade civil de forma autónoma, mas da iniciativa de um actor político plenamente identificado com um partido, com um percurso ideológico definido e com responsabilidades passadas na sua liderança. A carga partidária não se dissolve por via semântica. Pelo contrário, acompanha o projecto e condiciona a sua capacidade de se apresentar como espaço verdadeiramente transversal ou independente.A criação de um movimento assente numa votação conjuntural corre, assim, o risco de reproduzir um fenómeno recorrente na política portuguesa: a sobrevalorização do desempenho presidencial como base para projectos futuros. Do ponto de vista histórico, esse caminho raramente produziu consolidação política sustentável.Há ainda uma dimensão partidária relevante: a Iniciativa Liberal parece hoje assistir a uma inversão tácita de lideranças, em que o antigo líder re-assume centralidade sem mandato formal, com a anuência da actual direcção. Ao legitimar esta ambiguidade, o partido fragiliza a sua estrutura e transforma um bom resultado eleitoral num potencial problema estratégico. O resultado foi expressivo. A leitura triunfalista é, porém, analiticamente infundada. Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico