Em Portugal pergunta-se, e bem, por que não estende a União Europeia (UE) o prazo para a utilização das verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)?Essa extensão do prazo já antes fazia sentido tendo em conta a falta que essas verbas fazem para dar resposta a problemas tão sérios como os da habitação, dos transportes, da saúde, da educação, das creches ou do apoio social. Agora, em Portugal essas verbas fazem ainda mais falta tendo em conta as necessidades acrescidas que resultam dos impactos devastadores da tempestade Kristin.O problema é que, enquanto em Portugal há quem faça esse apelo há já muito tempo a partir das necessidades que a realidade nacional evidencia, na UE está agora a discutir-se a possibilidade de gastar essas verbas a prolongar a guerra na Ucrânia.Em vez de estenderem o prazo para que as verbas do PRR (ou, na sua dimensão europeia, o Mecanismo de Recuperação e Resiliência - MRR - que enquadra os PRR nacionais) possam ser utilizadas naquilo que estava inicialmente previsto, as instituições da UE estão agora a discutir a possibilidade de desviar as verbas não utilizadas do MRR para com elas financiar o empréstimo de € 90 mil milhões de euros com que pretendem continuar a alimentar o prolongamento da guerra na Ucrânia nos próximos anos.Essa opção, a concretizar-se, poderá significar mais um encargo para o próximo orçamento plurianual da União Europeia (o Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034) que deixará ainda menos margem orçamental para os programas e fundos comunitários destinados a outros fins muito necessários aos povos e ao seu bem-estar, nomeadamente à coesão, à agricultura, às pescas ou à ciência. Mas o pior de tudo é o que essa decisão significa em termos de opção política que se faz.São as prioridades viradas de pernas para o ar.Em vez de investir na construção e recuperação de casas, é investir na guerra que as destrói. Em vez de investir na saúde e na vida das pessoas, é investir na sua morte. Em vez de investir na elevação das condições de vida, no desenvolvimento e na paz é investir no negócio do armamento, na morte e na destruição.É incompreensível que, havendo essas verbas à disposição, o prazo para a sua utilização não seja alargado de forma a que possam ser plenamente aproveitadas.É ainda mais incompreensível que essa recusa de extensão do prazo para a utilização das verbas do MRR/PRR venha acompanhada da intenção de as desviar para o prolongamento da guerra e o financiamento do negócio que dela se alimenta.Mas seria absolutamente inaceitável que o governo português fosse cúmplice de uma tão monstruosa decisão, sobretudo face às necessidades por que as populações estão a passar.Espera-se do governo português a recusa daquele desvio de verbas do MRR/PRR, não apenas porque ele significa uma opção política inaceitável mas também para defender os interesses do povo e do País.*Eurodeputado *Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico