Proibir a IA no Ensino Superior: utopia e erro

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Esta semana, voltou a ganhar espaço no debate público nacional a ideia de que a Inteligência Artificial deveria ser proibida no Ensino Superior. Os argumentos são conhecidos: risco de empobrecimento cognitivo, dependência tecnológica, perda de autonomia intelectual, degradação da avaliação e da exigência académica.

São preocupações legítimas e merecem ser levadas a sério. Contudo, o erro começa quando, a partir deste diagnóstico, se conclui que a solução passa pela proibição.

O tema é demasiado relevante e estrutural para o futuro, pelo que tomei a opção de o tratar não em uma, mas em duas crónicas. Nesta primeira, argumento por que razão não se pode, nem se deve, proibir a Inteligência Artificial no Ensino Superior. Na crónica da próxima semana, discutirei como é possível e necessário ensinar e avaliar num contexto em que a IA já é uma realidade incontornável.

A ideia de proibir tecnologias no espaço académico tem um histórico pouco recomendável. Tentou-se, em diferentes momentos, limitar o uso de calculadoras, impedir o acesso à internet, desconfiou-se do Google, dos repositórios científicos digitais e até dos processadores de texto. Todas essas tentativas falharam. Não por falta de vontade, mas porque ignoravam um facto simples: quando uma tecnologia se torna estrutural, a sua exclusão é impraticável e contraproducente.

A Inteligência Artificial não é uma aplicação isolada que se possa desligar à porta da universidade. Está integrada nos motores de busca, nos corretores linguísticos, nos sistemas operativos, nos editores de texto e nas plataformas digitais que já fazem parte da vida académica. A sua proibição seria impossível de fiscalizar, profundamente desigual na prática e, acima de tudo, intelectualmente indefensável.

Mais grave ainda é o erro de diagnóstico subjacente a esta proposta. Se um estudante consegue concluir um curso superior sem pensar criticamente, recorrendo a automatismos, o problema não é a ferramenta. É o modelo pedagógico. É a forma como se ensina, o tipo de trabalhos que se pede, o modo como se avalia. A IA não criou essas fragilidades, mas tem contribuído para as expor com uma clareza chocante.

Há também um pânico moral recorrente em torno de cada nova tecnologia cognitiva. Sempre se temeu que o novo instrumento destruísse capacidades humanas fundamentais. A história mostra o contrário, pois sempre que o ensino se adaptou, a tecnologia ampliou o pensamento em vez de o substituir.

A pergunta decisiva não é, portanto, se gostamos ou concordamos com a Inteligência Artificial. É mais se queremos universidades desligadas do mundo real, que fingem que a tecnologia não existe, ou instituições exigentes, capazes de formar pensamento crítico num contexto inevitavelmente transformado. Proibir é fácil. Educar é mais difícil. Mas só uma dessas opções honra a missão do Ensino Superior.

Professor catedrático

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