A política portuguesa vive, há décadas, amputada do debate programático sobre temas essenciais.Diria que, pelo menos desde a segunda metade da década de 80 do século XX, o país não discute, com a necessária profundidade, política internacional, política de Defesa, a posição de Portugal na Europa e no mundo; ou a organização, dimensão e definição das funções do Estado.Sem ser demasiado dramático, julgo poder dizer que transferimos para outros a fixação das nossas opções no que respeita aos assuntos de soberania.Também demos por adquirido um quadro estável e imutável dos direitos, liberdades e garantias fixados na Constituição da República, sem cuidar de discutir novos normativos induzidos pela realidade, nem, tão puco, a possibilidade de direitos “constitucionalizados” serem, ou poderem ser, colocados em causa pelas práticas quotidianas.As mudanças ocorridas em 2025 e os seus desenvolvimentos concretizadores já em 2026, vieram, de facto, trazer para o centro do debate a necessidade de novas clarificações.Temos de saber se, nas relações internacionais, estamos do lado da força ou do lado dos tratados, que o mesmo é dizer, do lado dos impérios ou do lado da igualdade.Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem é o suporte das nossas posições ou se, antes, nos orientamos por juízos de oportunidade.Precisamos perceber se o país pode, e quer, viver com uma capacidade de Defesa limitada ou se entendemos que tais capacidades devem ser dimensionadas para a Defesa autónoma da nossa soberania.Quando sentimos uma certa ideia de Europa a esfumar-se, temos de saber se queremos uma Europa, espaço de liberdade e progresso, ou se apenas a vemos como um cofre dirigido pela máquina burocrática mais cara do mundo.E importa também, é aliás essencial, que cada um diga o que pensa sobre a organização e funções do Estado, bem como sobre as qualificações dos seus agentes. Só assim saberemos se estão do lado dos fortes ou do lado dos fracos.Por último, não basta dizer que se defende a Constituição da República como que a congelando num determinado momento histórico.Rever não é sinónimo de regredir. Deve sê-lo de progredir. Basta atentar na relação dos Direitos Fundamentais com a já omnipresente internet, ou, antecipar como se preserva a nossa liberdade, as nossas liberdades, com o advento da Inteligência Artificial.Os desafios são enormes e exigem de cada um que se posicione sobre matérias que, por décadas, quase ninguém abordou ou debateu e que foram ignoradas nos programas e propostas políticos.Somos, mais uma vez, confrontados com a necessidade de optar, como se tudo voltasse ao princípio, ou, como diz Manuel Alegre:Portugal O teu destino é nunca haver chegada O teu destino é outra índia e outro mar E a nova nau lusíada apontada A um país que só há no verbo achar Advogado e gestor