Poderá ter passado quase despercebida, no meio do turbilhão provocado pelo furacão Trump, mas a intervenção mais certeira em Davos, no Fórum Económico Mundial, terá sido a piada utilizada por Elon Musk quando fez um jogo entre as palavras peace (paz) e piece (pedaço) para comentar o recém-anunciado Conselho de Paz (Board of Peace), uma das recentes criações do presidente norte-americano na sua obstinação em reescrever a ordem mundial. Talvez ninguém tenha explicado tão bem até hoje o que se passa realmente com a política externa norte-americana quanto o homem mais rico do mundo o fez naquele trocadilho.A “paz” que apregoa o atual inquilino da Casa Branca soa cada vez mais a um jogo de distribuição de pedaços de território: “Um pedacinho da Venezuela, um pedacinho da Gronelândia. Todos queremos pedaços/paz”, descreveu com ar divertido Musk.Claro que os EUA sempre articularam interesses económicos com a sua política externa, mas assistimos hoje à substituição da diplomacia no seu sentido clássico (poderemos ainda sequer usar essa palavra?) pelo puro negócio.Donald Trump governa como sempre negociou: sob a bandeira do interesse patriótico, olha para o mundo como um portefólio de ativos. Rodeado de uma teia de multimilionários, na qual o próprio Musk vai entrando e saindo conforme a conveniência, o presidente norte-americano transformou a política externa numa espécie de prolongamento do conselho de administração.Num recente trabalho académico, os analistas políticos Stacie Goddard e Abraham Newman descrevem esta nova ordem emergente promovida pela Administração Trump e atribuem-lhe um nome: neo-royalismo. O “mundo trumpiano” parece-se mais com uma versão moderna da monarquia absoluta, um “neo-royalismo” onde um pequeno grupo de líderes e “hiperelites” domina o cenário global, explicam os autores ao Politico. E onde as decisões são feitas para beneficiar esse círculo, à boleia dos propalados interesses nacionais.Este neo-royalismo ajudará assim a explicar decisões aparentemente irracionais e como o poder é concentrado e distribuído entre as elites que, como foi claro desde o dia da tomada de posse, gravitam no círculo mais próximo de Trump.Os exemplos sucedem-se. Na Venezuela, sob o discurso patriótico da luta antidrogas e da defesa da democracia, estava em jogo o controlo da exploração de petróleo. Na Gronelândia, sob a capa da segurança no Ártico, espreitam as terras raras, minerais estratégicos, energia, setores onde muitos dos multimilionários que rodeiam o presidente norte-americano têm muitos milhões investidos. Em Gaza, em plena tragédia humanitária, surge dos escombros um megaprojeto imobiliário de “reconstrução”, apresentado pelo genro com o módico “preço” de 25 mil milhões de dólares.Trump diz querer muito o Nobel da Paz. Mas a paz que oferece parece vir sempre condicionada a contratos, concessões e pedaços de mundo. Talvez seja esse o verdadeiro prémio que persegue. Editor do Diário de Notícias