Viver em democracia é assumir a responsabilidade de respeitar a verdade. A liberdade de escolha não legitima a mentira, nem a manipulação. Num momento eleitoral decisivo, não está em causa a velha dicotomia entre esquerda e direita, mas a defesa da integridade contra discursos que distorcem factos e fragilizam a confiança pública. A democracia exige líderes que a honrem, não que a explorem. Exige líderes capazes de ser serenos em alturas de turbulência, capazes atuar sendo discretos.Uma democracia saudável não vive apenas do ato de votar, vive, sobretudo, do que acontece entre eleições: o respeito pelo pluralismo, a exigência de escrutínio e a cultura de verificação. Quando a mentira se normaliza, quando a manipulação se transforma em instrumento de conquista ou manutenção de poder, aquilo que se quebra não é apenas o debate político, mas sim o compromisso cívico que sustenta a confiança entre pessoas e instituições.A verdade, em democracia, não é um adorno moral. É a infraestrutura invisível que permite o desacordo produtivo: podemos divergir em valores e preferências, mas partimos de factos legíveis. Sem essa base comum, a conversa pública torna-se ruído, e o ruído é o terreno fértil da manipulação. Não se trata, por isso, de escolher um campo ideológico, mas de proteger o espaço onde as diferenças podem existir sem que a falsidade capture a decisão coletiva.Há quem confunda liberdade de expressão com licença para enganar. Não é. A liberdade responsabiliza: exige fontes, contexto, prestação de contas. Na vida económica, chamamos a isso transparência; na vida política, chamamos integridade pública; na vida social, chamamos confiança. Em qualquer destas dimensões, a mentira tem custos concretos: distorce escolhas, alinha recursos com prioridades erradas e gera frustração que se transforma em ódio, o que pode levar a turbulência social e a imposição policial.Num ciclo eleitoral, a tentação de simplificar problemas complexos é grande. Os slogans simplificam as promessas que seduzem a população, sendo muitos desses slogans irrealistas e ausentes de qualquer verdade.A maturidade democrática mede-se pela capacidade de resistir ao conforto da ilusão, ao conforto de querer acreditar num slogan atraente, mas falso.As lideranças que honram a democracia são aquelas que dizem a verdade sobre os limites, que reconhecem os custos e o tempo que as mudanças demoram, de forma a garantir o respeito pelo ser humano e a causa pública comum. Estas lideranças não prometem mundos imediatos; constroem caminhos partilhados. E, nesta altura em que o ódio, a inveja, a frustração e a manipulação constituem narrativas usadas por vários partidos e vários políticos, é essencial que o próximo Presidente da República seja moderado e que ambicione construir uma democracia mais atualizada, mas que continue a respeitar o ser humano, a sua liberdade e proteção.A integridade não elimina o conflito político - dá-lhe forma. Obriga a que o adversário seja visto como interlocutor, não como inimigo. Esta diferença é decisiva: onde há inimigos, há medo e violência simbólica; onde há interlocutores, há regras e futuro. É por isso que a mentira, ainda que eficaz no curto prazo, é sempre autodestrutiva, podendo levar a ilusões que criam frustrações, que podem levar a tumultos sociais, com consequências para os mais desfavorecidos, para aqueles que são os mais frustrados.Viver em democracia é, também, aceitar a humildade do processo: mudar de ideias perante bons argumentos, corrigir erros, reconhecer ambiguidades. A verdade democrática não é dogma; é método. E o método exige instituições fortes, imprensa livre, cidadãos ativos com direitos e deveres, e dirigentes capazes de transformar o poder numa prática de serviço.Chegados aqui, a escolha que importa não é entre etiquetas ideológicas, mas entre dois modos de estar: honrar a democracia ou explorar a democracia. Honrá-la é falar com clareza, prestar contas e respeitar limites. Explorá-la é usar o voto como escudo para distorcer factos e dividir a sociedade.Num contexto mundial e europeu de rotura, de guerra eminente, todos nós, os cerca de 10 milhões de Portugueses, devemos tudo fazer para evitar que a nossa sociedade se divida, para evitar os ódios que só amplificam os problemas e que nunca trazem uma solução. Este contexto internacional exige que países pequenos, como nós, sejam inteligentes para manterem a coesão e espírito democrático e de apoio social.Perante os dois candidatos que agora se apresentam para ter a responsabilidade de ser o próximo Presidente da República Portuguesa, parece-me ser inquestionável que António Seguro defende a democracia. Por isso, apelo àqueles que estão agarrados ao dogma dos extremos “esquerda vs. direita” que consigam ultrapassar esse enviesamento, e que consigam compreender que o que está em causa é muito mais do que essa dicotomia: o que está em causa é a própria democracia.Também nunca pensámos que existisse um Trump como presidente dos EUA, e agora ele está lá. Nunca assumir que o impensável não acontece. A História tem-nos dito que o impensável pode acontecer. E eu tudo farei para que o impensável seja também impossível.*PhD, CEO da Systemic