PPD, um partido improvável

Quando se reclama como "o partido mais português de Portugal", o PPD/PSD, como diria Pedro Santana Lopes, tem razão. A fundação do partido não obedeceu a lógicas de alinhamentos internacionais, não "respeitou" a dicotomia inglesa que divide a sociedade entre "conservadores" e "progressistas" ou, na versão americana, entre republicanos e democratas.

O PSD nasceu da sociedade civil, ainda antes de essa sociedade saber que viria a ser sociedade e civil. Foi fundado numa matriz que se define em três ideias e quatro palavras. O PPD é humanista, reformista e social-democrata. Não é preciso mais do que isto para se perceber a génese, para clarificar posições, para delimitar barreiras e espaços ideológicos. O PPD não é estatizante, não é do centro, não é de esquerda, não é de direita, não é conservador, não é fascista, não é liberal. É, segundo a matriz, humanista -- privilegia a pessoa no centro das políticas e como fim último --, é reformista porque a sociedade é dinâmica e está em permanente mudança, o que deve ser interpretado pelos dirigentes como um desafio contínuo de melhoria nas instituições e nas organizações -- e é social-democrata, inspirado na social-democracia nórdica e na vontade popular dos portugueses que em 1974 entenderam que o caminho a seguir não era o socialismo nem a extrema-esquerda.

Seguir um caminho isolado dos grandes diretórios internacionais, sem alinhamentos ideológicos, sem comprometimentos com famílias políticas europeias, sem respaldo doutrinário, mas antes com uma ambição mais "terrena" de modernizar um país acabado de sair das trevas, convenhamos, não é uma ideia fácil.

O PPD estava condenado ao insucesso, a ser apenas mais um partido do pós-revolução, que dois ou três anos depois se tornaria irrelevante ou dispensável.

A história prova que, não só não aconteceu assim, como este partido da social-democracia à portuguesa acabou por ser a referência da "não esquerda", e constituir-se como a alternativa -- e alternância -- no governo.

Chegados aqui, talvez convenha lembrar, de novo, a matriz: humanista, reformista, social-democrata.

As diretas deste fim de semana vão escolher um líder para o PSD. Não há grande diferença entre os dois candidatos. Não há clivagens ideológicas profundas, não há divergências insanáveis na forma como cada um deles olha a sociedade, qual o papel do PSD e a sua relação com o país. O que os distingue é, sobretudo, tático e estratégico. A campanha interna do PSD não deve reduzir-se a saber quem está ou não está disponível para fazer acordos com o PS. No fim do dia, ambos o farão, como todos os anteriores líderes do PSD (e do PS) o fizeram. Há mais diplomas na história da democracia aprovados entre PSD e PS do que entre cada um destes grandes partidos e os que lhes estão ideologicamente mais próximos.

Quando as questões são estruturais, de regime, de salvaguarda da democracia ou de interesse nacional diante da Europa ou do mundo, a grande coligação do "bloco central" nunca falha.

Rio e Rangel, nesta altura, têm apenas um e só um desafio - convencer, primeiro os militantes que vão votar este sábado, e depois os eleitores, a 30 de janeiro - de que um deles pode ser primeiro-ministro.

Jornalista

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