O atual “comboio de tempestades” voltou a expor uma fragilidade que já não é conjuntural nem excecional: Portugal continua a enfrentar riscos sistémicos com um modelo de Proteção Civil desenhado para uma realidade que deixou de existir.Não estamos perante fenómenos isolados ou imprevisíveis. Estamos perante uma sucessão de impactos - climáticos, energéticos, tecnológicos e sociais - que interagem entre si e ampliam vulnerabilidades pré-existentes. O problema não é a intensidade do vento ou da chuva. O problema é um Estado que continua a tratar o risco como episódico e não como condição permanente da governação.A Proteção Civil portuguesa foi construída para responder a acidentes delimitados no tempo e no espaço, com cadeias de decisão sectoriais e uma lógica de intervenção sequencial. Esse mundo acabou. Hoje, os riscos são prolongados, encadeados e afetam em simultâneo o funcionamento do Estado, da economia e da vida quotidiana. No entanto, o sistema continua a operar por silos, com entidades que planeiam, decidem e comunicam de forma autónoma, ligadas sobretudo por mecanismos formais de coordenação. Em contextos de pressão, esta fragmentação não contém o risco - amplifica-o. A ausência de integração operacional e de decisão em tempo real gera atrasos, sobreposições e vazios de responsabilidade, transformando um impacto inicial numa sucessão de crises secundárias. É esta dissonância entre riscos sistémicos e uma resposta institucional fragmentada que hoje agrava os efeitos dos fenómenos extremos e fragiliza a confiança coletiva.É por isso que o discurso público de apelo genérico à “tranquilidade” é insuficiente e potencialmente perigoso. Em contextos de risco real, tranquilizar não é proteger. Pode desresponsabilizar cidadãos, operadores e decisores, atrasando comportamentos críticos. O que se exige é seriedade, clareza e responsabilidade partilhada.Há ainda uma dimensão frequentemente subestimada: grande parte das infraestruturas críticas e dos bens essenciais - energia, telecomunicações, água, transportes, logística, abastecimento alimentar - é gerida por operadores privados. Sem a sua integração plena na arquitetura de gestão de crises, qualquer modelo de Proteção Civil está incompleto à partida. Não basta coordenar entidades públicas entre si. É indispensável integrar o setor privado como ator estrutural da segurança coletiva, com regras claras, partilha de informação em tempo útil e responsabilidades definidas antes da crise - não apenas durante.O fracasso do modelo atual não resulta da falta de meios nem do empenho dos profissionais no terreno. Resulta de uma arquitetura institucional desajustada, excessivamente centrada na coordenação formal e pouco preparada para funcionar como sistema.O que está em causa não é apenas reformar a Proteção Civil. É redefinir o contrato cívico e operacional entre o Estado, o setor privado e a sociedade. Passar da exceção à permanência. Da gestão da perceção à governação da vulnerabilidade. Da tranquilidade retórica à responsabilidade consciente.Hoje, proteger não é acalmar. É preparar, em conjunto!*Especialista em Segurança e Defesa