Portugal e os fundamentos do novo capitalismo japonês

Durante a reunião anual de Davos, que decorre uma vez mais em formato digital, o primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, apresentou resumidamente a base programática da presidência do G7, que o seu país assumirá em 2023, mencionando os desafios ambientais, tecnológicos, sanitários, geopolíticos e sociais que o Japão enfrenta, nomeadamente as alterações climáticas, os desequilíbrios na distribuição da riqueza, as tensões sociais, a crise demográfica e a desertificação do interior. O primeiro-ministro Kishida estava a falar do seu país, mas poderia estar a falar de Portugal.

Para dar resposta aos desafios, Kishida defendeu uma reinvenção do modelo capitalista liberal, promovendo a colaboração aberta entre o Estado, o setor privado e as organizações da sociedade civil que permita gerir os impactos negativos do sistema. Em particular, o primeiro-ministro considerou que a chave para o novo modelo de crescimento económico deverá colocar as pessoas no centro do sistema, que são vistas como uma mais-valia e não um custo económico. Para tanto, Kishida considera que a revolução digital poderá criar as bases para a alteração do papel económico e social dos cidadãos.

Se não há qualquer dúvida de que a revolução digital irá alterar profundamente as nossas vidas e sociedades, não há certezas sobre a forma que essas mudanças tomarão, nomeadamente não sabemos que empregos serão criados, que competências teremos de ter para sermos empregáveis ou mesmo se haverá empregos para todas as pessoas. Mas sabemos que a revolução digital já começou e que chegará em força na próxima década.

Se sabemos que um tsunami de mudanças políticas, económicas e sociais está a chegar e sabemos que temos uma janela de tempo pequena para nos preparamos, não será tempo para o fazer? Numa economia digital, que tipo de competências devemos ensinar nas escolas, universidades e nos programas de formação ao longo da vida? Certamente não as mesmas que a inteligência artificial fará melhor do que nós. Se as necessidades de trabalho mudarem radicalmente, como vamos nós gerir as pessoas que não se conseguirão adaptar mas que ainda não têm idade para se reformarem? Certamente não podemos deixá-las abandonadas à sua sorte, sem emprego e sem reforma. Se o modelo de trabalho mudar profundamente, como vamos nós preparar as empresas e as pessoas? Certamente não será no dia seguinte a tudo acontecer. Se a revolução industrial resultar num número importante de pessoas permanentemente desempregadas, como vamos nós reconhecer os seus contributos para a sociedade? Certamente não será possível gerir o contrato social numa sociedade onde muitos não têm papel nem dignidade. Mesmo não sabendo muito, já estamos atrasados para preparamos o futuro.

O novo capitalismo defendido pelo primeiro-ministro japonês não parece ser uma revolução radical de modelo político, económico e social embora a revolução digital proposta o seja. Mas o sistema proposto por Tóquio, tal como o modelo em que assenta o contrato social nórdico, baseia-se numa relação de confiança e abertura entre o Estado, os parceiros sociais e a sociedade civil e na capacidade de antever as mudanças e prepararmos coletivamente as respostas. E, nesse campo, temos todos muito para fazer.

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa
bicruz.dn@gmail.com

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