Portugal-Brasil. O voo histórico, os encontros e a irritação 

O presidente brasileiro terá ficado irritado ao saber da decisão do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, de se encontrar antes com Lula da Silva. E acabou mesmo por cancelar o encontro com Marcelo - "ainda que não tenha havido por escrito nenhuma comunicação", disse ontem o Presidente ao DN, no Rio de Janeiro -, sem mais justificação do que a prévia reunião com o antigo chefe do Estado brasileiro. "Bolsonaro entende que não pode, não quer, não é oportuno, não entra na sua programação encontrar-se comigo e teve a gentileza de o confirmar por escrito. Não vou a Brasília", reagiu simplesmente o PR português, assegurando que o infeliz episódio "nada" altera nas relações entre os dois países.

Para Portugal, o Brasil é muito mais do que um rosto, um presidente, uma liderança com tiques de ditadura militar. O Brasil é um país irmão, membro da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa e uma das maiores potências do mundo.

Para a nação onde nasceram Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa, as terras de Vera Cruz continuam a ser importante destino de exportações, sobretudo nos produtos do chamado "mercado da saudade", como o vinho (Portugal é o segundo país produtor de vinho mais vendido no mercado brasileiro), bacalhau, azeite, mas também maquinaria, equipamentos e outros.

A relação bilateral em termos de investimento direto estrangeiro é histórica e forte, com registo de subida da procura de imobiliário por parte de muitas famílias brasileiras que querem sair daquele país e viver no cantinho lusitano, sem a animação do samba mas com mais segurança. O intercâmbio cultural é incomensurável, como se vê na Bienal Internacional do Livro, que decorre de 2 a 10 de julho na cidade paulista.

A birra de Bolsonaro pouco muda, por isso, nos planos do Presidente, que seguiu num avião da TAP, na última hora de sexta-feira, e iniciou uma visita oficial ontem (sábado), assinalando o centenário da travessia aérea do Atlântico Sul, realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, numa cerimónia no Rio de Janeiro.

Da agenda oficial, deverá saltar a reunião em Brasília, mas mantém-se hoje a presença em São Paulo - para visitar a Bienal Internacional do Livro e cujo tema é Portugal -, bem como o encontro com Lula da Silva, presidente entre 2003 a 2010 e que é agora um forte candidato às eleições de outubro, contra Bolsonaro. Com todas as polémicas e casos de justiça, Lula continua a subir nas sondagens. Veja-se a que foi publicada pelo grupo Datafolha e citada pela RTP a 25 de junho: o antigo presidente reúne 53% das intenções de voto, enquanto Jair Bolsonaro, tem 32%, surgindo em terceiro lugar o ex-ministro Ciro Gomes, que soma 8% das intenções de voto. Além do encontro com o antigo presidente, Marcelo quer sentir o pulso ao estado da nação brasileira e tem conversa marcada também com o ex-presidente Michel Temer, naquela que é já a sua sexta visita oficial ao Brasil.

Com birra ou sem birra, Portugal e Brasil vão continuar a ter uma relação umbilical sempre. E se há 100 anos nos lançámos na grande aventura de descobrir a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, hoje lançamo-nos numa aventura de conhecer melhor um gigantesco destino da América Latina, que tem tudo para dar certo, só falta combater o crime e a corrupção - e escolher bem os seus dirigentes.

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