Portugal 2040

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Há uma certa ironia em observar como a política portuguesa, que tanto se orgulha da sua pluralidade partidária e do seu centrismo prudente, caminha alegremente para uma simplificação que faria corar de inveja qualquer sistema bipartidário anglo-saxónico. Mas com uma diferença: não será um bipartidarismo de alternância civilizada. Será um bipartidarismo de trincheiras.

Dentro de dez a 15 anos, o mais provável é que tenhamos em Portugal dois novos blocos políticos. De um lado, uma espécie de “Bloco Central” institucionalizado, nascido da fusão prática - se não formal - entre o PS e o PSD. Não por amor, evidentemente, mas por instinto de sobrevivência. Afinal, quando dois animais feridos se encontram na mesma toca, ou se devoram ou aprendem a coabitar. E estes dois, exaustos de tanto fingir que são diferentes, acabarão por descobrir que partilham o essencial: o gosto pelo poder e o medo de o perder para quem não pertence ao clube.

Do outro lado, um Chega consolidado, depurado provavelmente das suas figuras mais caricatas, mas não das suas mentiras fundacionais. André Ventura, se a sorte o acompanhar, continuará a encarnar o messianismo ressentido que tanto seduz uma parte relevante do eleitorado, que continuará a aumentar, à medida que desaparecem os eleitores formados politicamente no pós-25 de Abril. E, se não for ele, será outro comunicador - porque o lugar de profeta irritado nunca fica vago por muito tempo, numa sociedade que cultiva o queixume como desporto nacional.

Entre estes dois, sobreviverão outros pequenos partidos, como plantas que crescem nas fendas do betão, da direita liberal, e ainda de extrema-esquerda, esta a falar para assembleias cada vez mais exíguas, convencida de que a sua revolução está ao virar da esquina. E até poderia estar, se o eu e o agora não fossem a nova pauta universal de vida.

O mais intrigante será observar quem emergirá como líder do Bloco Central. Porque este arranjo, para funcionar, precisará do seu próprio messias - alguém suficientemente anódino para não assustar, mas suficientemente carismático para fazer esquecer que representa a rendição de dois partidos históricos ao medo. Ainda não sabemos quem será. Talvez ainda não saiba que o será. Mas virá, porque a política, como a natureza, tem horror ao vazio. Especialmente ao vazio de liderança.

Este não é só um cenário de ficção. É a consequência lógica do esgotamento de um modelo que vive de promessas por cumprir e de uma sociedade que, refundada no ideal do indivíduo, se prepara para escolher entre o tédio organizado e a indignação instrumentalizada.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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