Acaba de ser publicada uma nova reimpressão do primeiro volume do Guia de Portugal, graças à generosidade da Fundação Gulbenkian. Mais de 100 anos sobre a sua publicação, é uma justa homenagem, bem merecida, a Raúl Proença. Não se trata de um roteiro atual, mas de uma memória presente que os leitores têm acarinhado e continua a ser um símbolo nas melhores bibliotecas dos portugueses.A qualidade original merece uma atenção especial, num momento em que está em curso a criação de um novo instrumento digital para permitir um melhor conhecimento do Património Cultural Português, à semelhança do que existe para o Património de Influência Portuguesa no mundo (HPIP), com a coordenação inesquecível de José Mattoso.Ramalho Ortigão dizia: “Nada há no mundo mais saborosamente aprazível para um coração lusitano do que viajar, simples, modesta, obscuramente em Portugal”. Como tem feito recentemente José Sá Fernandes, com o Guia de Portugal nas mãos, descobrir Portugal é uma exigência e um dever. E nestes dias, sob os efeitos da catástrofe climática, o amor à terra, o planeamento, a proteção e a memória são mais urgentes que nunca. Se há política pública da cultura que seja verdadeiramente prioritária e urgente é a do património cultural como realidade viva, como conhecimento, defesa, preservação e salvaguarda do que recebemos e ligação à criação contemporânea.A belíssima capa da autoria de Raul Lino une tradição e modernidade e apela ao culto da beleza e da paisagem, enquanto dever de qualidade e equilíbrio. Como ensinou Gonçalo Ribeiro Telles, ao intervir na paisagem, a pessoa humana participa no ato sublime de Criação. Raul Proença diz no pórtico deste saudoso livro, que ele foi sonhado “nos verdes vales, nos rios plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas suas costas de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas dormentes - e feito pelo amor e pelo espírito de veracidade de alguns Portugueses, para conciliar e adjurar a infinita piedade portuguesa merecendo talvez, pelo muito que outros fizeram e farão, e pelo pouco que eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça - o Livro do Amor e Devoção de Portugal”.Sim, é disto que se trata. Para amarmos a nossa cultura, a nossa terra, as nossas gentes, neste ponto de encontro de mil diferenças, Finisterra, “onde a terra se acaba e o mar começa”, temos de reconhecer a nossa História como convergência de diferenças e ponto de partida para a demanda do desconhecido e dos outros que nos completam. É Portugal que em viagem se prolonga no mundo e que precisamos de conhecer palmo a palmo, olhos nos olhos. Hoje, solidariamente com quem sofre, olhamos o futuro com muita exigência, planeando, prevenindo, antecipando, e dando-nos as mãos para que façamos o que tem de ser feito.Elegemos o novo Presidente da República, sob a evocação antiga de “unir os portugueses e servir Portugal”. É um novo tempo que se abre. É a regeneração da Pátria que está na ordem do dia e nos obriga ao trabalho, à atenção e ao cuidado. E se falei do amor à cultura e da prioridade à defesa e preservação do património, da herança e da memória - falo, sobretudo de pessoas e das suas angústias e das suas esperanças e da vontade de vencer as terríveis adversidades. Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura