Porque é que o Arquivo do JN não é um Tesouro Nacional?

A classificação do Arquivo do Diário de Notícias como Tesouro Nacional, decidida em Conselho de Ministros na semana passada, é uma boa notícia para o país, é uma boa notícia para este jornal onde escrevo, é uma boa notícia para a direção do DN, para a sua redação e para o Global Media Group, empresa proprietária desse arquivo.

A classificação do Arquivo do Diário de Notícias comporta, no entanto, uma má notícia: a discriminação absurda do Arquivo do Jornal de Notícias.

Quando este processo se iniciou, em maio de 2020, eu era diretor nessa casa (saí em novembro de 2020) e tinha, há seis ou sete anos, entre outros, o pelouro do Arquivo do Global Media Group, onde o Arquivo do DN se integra.

A ideia de classificar o Arquivo do Diário de Notícias, uma finalidade meritória, veio de um grupo de personalidades que o fez, porém, suportado em razões sem mérito: eles partiram de uma suspeita totalmente infundada, assente em boatos e maledicência, de que o material à guarda desta empresa estaria, e cito o texto então divulgado, a enfrentar "riscos de extravio, deterioração e até destruição" e que estaria "arrumado num armazém, inutilizável".

Tratou-se de um verdadeiro insulto, injustificável, que recuso esquecer, aos trabalhadores que gerem esse património e o tornam acessível a todos os que o consultam. Foi também um insulto às pessoas que administram a empresa, apontadas publicamente como, no mínimo, de irresponsáveis.

Bastava a qualquer um dos signatários desse documento ter feito uma visita ao Arquivo para conferir o erro de tais acusações. Nenhum deles o fez.

A verificação, na sequência da abertura do processo de classificação, pela equipa (excelente, tenho a dizer) da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas da situação real do Arquivo do DN repôs a verdade e suscitou um desfecho que, como já disse, é uma boa notícia para toda a gente.

Porém, o documento inicial escrito por essas personalidades a solicitar ao ministério da Cultura a classificação desse património é responsável por uma enorme injustiça: ao focar-se apenas no Arquivo do DN obrigou, na sequência, a um processo burocrático apenas centrado no Diário de Notícias - e assim foi ignorado um património documental igualmente relevante do Global Media Group: o Arquivo do Jornal de Notícias, que é propriedade da mesma empresa dona do DN desde 1991.

Por que razão o Arquivo do JN não é um Tesouro Nacional? Porque é que estas pessoas (dois ex-presidentes da República, dois políticos/historiadores, um deles, por acaso, natural do Porto, entre outras) esqueceram o norte?

Na altura tentei alertar para isso com um artigo intitulado "O arquivo do Diário de Notícias não existe", precisamente para chamar a atenção que o Global Media Group tem na sua posse não só a excelente coleção de jornais, recortes de imprensa e de fotografias acumuladas desde 1864 pelas gerações de arquivistas do Diário de Notícias, como material de grande valor histórico e patrimonial organizado pela equipa de arquivistas do Jornal de Notícias, desde 1888. Ambos deveriam ser analisados em pé de igualdade.

Esse aviso foi completamente ignorado.

Qualquer pessoa que vá ao Arquivo da GMG e consulte, por exemplo, um ano do princípio do século XX no Diário de Notícias e o mesmo ano no Jornal de Notícias verifica que os políticos, os dignitários da Igreja Católica, os barões da indústria, os líderes laborais, os dirigentes associativos, os clubes desportivos, os artistas, os escritores, todos os famosos que aparecem e intervêm são diferentes entre os jornais do Porto e de Lisboa.

As pessoas importantes no jornal de Lisboa não são relevantes no jornal do Porto, quase nem aparecem - e vice-versa.

As notícias e os temas políticos do jornal do Porto focam-se numa forte identidade regional, os de Lisboa focam-se no poder do Terreiro do Paço.

Até as roupas das pessoas fotografadas no jornal de Lisboa são diferentes das roupas das pessoas fotografadas no jornal do Porto.

As paisagens, os instrumentos de trabalho, os meios de transporte, o tamanho das fábricas, a luz, os rios, tudo é diferente.

Classificar o Arquivo do DN sem classificar o Arquivo do JN é ignorar metade da história contemporânea do país e é desprezar a sociedade nortenha.

Classificar o Arquivo do DN sem classificar o Arquivo do JN é só achar importante uma metade do que nós, portugueses, somos.

Eis um erro que pode e deve ser corrigido.

Quem o diz, aqui neste texto, é um lisboeta de terceira geração.

Jornalista

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