Porque a bola pincha

Não é preciso conhecer as leis da física para sabermos que a bola pincha. Mas não deixa de ser maravilhoso como, por uns dias, descobrimos que o futebol, mais do que os capacetes azuis das Nações Unidas, consegue fazer respeitar à escala continental um mesmo código de conduta, as regras do jogo. Em campo, países ricos e países pobres, de distintas geografias, separados por todo o tipo de diferenças culturais, sociais e religiosas, e por vezes até envolvidos em conflitos armados, aceitam jogar sob o mesmo regulamento e compreendem que um indivíduo que não conhecem de lado nenhum, vestido de forma diferente e de apito na boca, o faça cumprir - tomara António Guterres!

Com um ano de atraso, devido à pandemia, o Euro 2020 joga-se em 11 cidades de 11 países, até 11 de julho, e a seleção portuguesa inicia hoje mesmo a defesa do título europeu, em Budapeste, frente à seleção da casa, a Hungria, com quem nunca perdemos. Num dia em que Alemanha e França, nossos principais adversários na fase de grupos, medem forças em Munique, Portugal terá, à partida, uma estreia acessível na prova, embora os magiares contem do seu lado com o forte apoio vindo das bancadas do estádio batizado com o nome Ferenc Puskás, ainda hoje considerado o melhor futebolista do século XX. Do nosso lado, o selecionador nacional promete o melhor, ou seja, tudo: a nossa equipa "vai dar tudo o que tem para dar uma alegria" aos pelo menos 11 milhões de adeptos que somos das cores nacionais.

É claro que um campeonato entre nações acentua o lado nacionalista e patriótico das equipas e suas hordas de apoiantes, avivando a memória dos livros de Astérix, que jogam com estereótipos sobre a rivalidade entre britânicos, suíços e germânicos - ainda que se saiba agora que o goleador sueco Zlatan Ibraimovic, apesar de ausente neste torneio, se prepara para vestir a pele de ator, alinhando como centurião romano, chamado de Caius Antivirus, no quinto filme em imagem real sobre as aventuras do gaulês criado por Uderzo e Goscinny. Mas entre o entusiasmo e a paixão pelo futebol, é a diversidade de gentes que torna o Campeonato da Europa tão especial. E a beleza do futebol é que ninguém tem de renunciar àquilo em que a infância e a circunstância converteram cada um. Ali, todos se reconhecem diferentes, também porque as mesmas regras se aplicam a todos.

Assim como o mercado do futebol, o número de seleções participantes passou de quatro em 1960, para 16 em 1996, e para 24 em 2016. Ainda hoje sorrimos quando alguém diz que "jogamos todos muito bem, e no final ganha a Alemanha"; mas até nisso a história destes campeonatos europeus desmente a piada francesa, porque em 15 campeonatos já conhecemos dez diferentes campeões. Portugal entre eles, desde 2016, com aquele golo do Eder que nos fez pular de alegria, mesmo sem o Cristiano dentro de linhas. E quem não sabe fica a saber que, tal como na política, também no futebol não há homens providenciais: os melhores do mundo saem por vezes vencidos do seu pedestal. Eu, que sou antigo, ainda guardo a vaga memória do primeiro Euro. Ganharam os soviéticos, mas do que eu me lembro bem é do Lev Yashin, o "Aranha Negra de Moscovo", assim conhecido por equipar sempre de preto, o único guarda-redes alguma vez eleito Futebolista Europeu do Ano. Entrementes, o coronavírus não joga, mas vai certamente participar. É, para já, a verdadeira potência mundial, a única capaz de nos ensinar o que é verdadeiramente importante entre os países nas próximas semanas: solidariedade e justiça no combate ao adversário de todos.

Jornalista

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