Por uma vez

O tema da pandemia voltou a ganhar tração no espaço público, após um verão que foi bem mais descansado que o do ano anterior e, por isso, delicioso. Suspeitávamos que o tema não estava ainda atirado para os livros de história. E confirmou-se. O que se espera, agora, e por uma vez que seja, é que as coisas sejam diferentes.

Por uma vez, espero que tenhamos aprendido com o passado. Embora compreensível, a ansiedade pré-natalícia de 2020 revelou-se má conselheira. Embora os oportunistas de carreira tivessem aproveitado a ocasião para bater nos do costume, que são os que dão a cara e assumem responsabilidades, a verdade é que a culpa foi coletiva. Foram os cidadãos comuns, que ansiavam por um Natal "normal". Foram os restaurantes e hotéis, que esperavam recuperar parte das perdas acumuladas. Foram os políticos da oposição, que exigiram ao governo a abertura, procurando ganhar créditos políticos junto da população. E foi o governo e o Presidente da República que cederam à onda dominante. O resultado foi um desastre que, a avaliar pelo que se passou no resto da Europa, suspeito que não fosse evitável, mas poderia seguramente ter sido muito mitigado.

Por uma vez, fomos mesmo os melhores do mundo. Fomos, repito. O governo e o SNS, com certeza, mas sobretudo as pessoas, que aderiram ao processo de vacinação com a entrega e a disciplina que se exige em tempo de guerra. Os portugueses são um povo surpreendente, bem mais épico do que lírico, e mostraram à Europa que na hora da verdade dizem presente. Os 87% da população vacinada humilham, repito, humilham a Europa, dita desenvolvida, do norte e das elites. Aos que gostam de acenar com as Repúblicas do norte e leste europeu, dizendo que nos ultrapassam em tudo, respondo com os gráficos que confrontam vacinação com mortes e internamentos. São Estados onde falham demasiadas coisas, a começar pelos respetivos sistemas de saúde e a acabar nos sistemas de educação e ensino, que trabalham para as estatísticas, mas que, no fim do dia, fazem cidadãos inacabados, daqueles que acham que as vacinas são uma criação do diabo e que a sua liberdade de as rejeitarem se pode sobrepor ao direito à vida dos demais.

Por uma vez, a ciência provou ser boa conselheira da política e esta geriu uma crise de forma equilibrada e competente. Ser conselheira não é substituir. As decisões que tiveram de ser tomadas ao longo dos últimos vinte meses foram de natureza política. Isso é inquestionável. Porque quem sabe de epidemiologia e de cuidados de saúde não domina, os aspetos sócio-económicos associados, por exemplo, a decisões de confinamentos. Ouvir a ciência é um ato de inteligência, mas a decisão política não se esgota nesse ato. A história há de fazer justiça às reuniões do Infarmed, humildemente frequentadas pelo Presidente da República, pelo primeiro-ministro, por governantes, políticos e jornalistas. Foi extraordinário assistir a esse sinal de maturidade da nossa democracia. Tal como foi extraordinário ouvir que o desempenho na vacinação nos poupou duas mil vidas, duzentas mil infeções, 135 mil dias de enfermaria e 55 mil dias de cuidados intensivos. Goste-se ou não, o sistema político, de que tão mal se diz, foi do melhor que se conhece na Europa e no mundo, e eu pessoalmente sinto-me orgulhoso disso.

Por uma vez, espero que a classe política, na qual me incluo, se abstenha de usar o tema da pandemia na campanha eleitoral que se avizinha. A situação tende a agravar-se nesta chegada do inverno e seria lamentável, direi mesmo antipatriótico, usar a covid como arma de arremesso no combate político. Esta é a hora de sermos, todos, grandes.


Deputado e professor catedrático

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