Por quanto mais tempo vamos adiar os nossos sonhos?

Cresci a ouvir os meus pais contarem histórias muito duras sobre a sua infância e adolescência. Começaram a trabalhar bem cedo para ajudarem ao sustento da restante família e, por isso, não puderam ir mais longe nos estudos. Dividiam com os pais e irmãos o pouco alimento que existia à época e viviam sem luxos ou facilidades.

Ainda assim, fico sempre com a sensação de que essa geração, apesar de todas as contrariedades, era mais livre do que nós...

A minha geração está cansada de rótulos!

Às segundas e quintas somos a "geração à rasca"; às terças e sextas a "geração mais qualificada de sempre", às quartas a "geração dos emocionalmente fracos" e aos sábados e domingos somos os "mimados". A verdade é que a minha geração tem adiado os seus sonhos, crise após crise, sucessivamente.

Segundo aponta o Eurostat, os jovens portugueses deixam a casa dos pais mais tarde do que a média europeia. Os portugueses saem de casa dos pais quase aos 29 anos, três anos acima da média da União Europeia que se situa nos 26 anos. Para a maior parte dos jovens portugueses, sair de casa dos pais é uma realidade bem longínqua.

Ter filhos? Esse objetivo é cada vez mais uma miragem. Acontece que o problema da natalidade em Portugal é um problema de condição de vida, de economia e melhoria do emprego, e antes de mais devem ser estes os pressupostos a considerar nesse debate.

Para além de tudo isto, o país político divorciou-se dos jovens e, por consequência, estes deixaram de honrar o seu compromisso social e político. Vivem numa nova condição nem-nem: nem votam nem decidem. Os jovens portugueses querem educação, emprego e habitação. Exatamente tudo o que lhes tem sido negado nas últimas décadas.

Apesar de corresponderem a cerca de 30% da população geral, têm em Portugal sempre uma condição de maior fragilidade do que a maioria da população. São os que ganham menos e os que trabalham mais. Na hora do aperto, são também os mais dispensáveis, na exata medida em que são os que mantêm vínculos laborais mais precários.

Indicadores do INE no início do presente ano revelaram que a taxa de desemprego dos jovens foi estimada em 24,6%. Por outro lado, a taxa de desemprego dos adultos foi estimada em 6%. Aparentemente, são também os mais jovens os que mais têm sido penalizados com a pandemia.

O risco de pobreza nos jovens portugueses também é superior em Portugal do que no resto da Europa, fixando-se em 30%, enquanto a média europeia é de 27%. Seja qual for o referencial, a juventude portuguesa está entregue a si mesma, sem que o país político lhe dedique grande atenção. Não admira, por isso, que em Portugal se assista a um profundo desinteresse pela política e até insatisfação dos jovens com a democracia.

A minha geração está cansada de slogans!

A sub-representação dos jovens nas instituições democráticas tem ainda, a jusante, uma consequência óbvia: somos incapazes de garantir um lugar à mesa das decisões e de encontrar soluções em conjunto para habitação, emprego, educação, combate à pobreza e à exclusão social, cuidando do planeta e acautelando um futuro para todos.

Na verdade, é a nossa geração que mais tem sofrido com a falta de responsabilidade política e qualidade da democracia. É a nossa geração que está e irá continuar a pagar bem caro esses erros e que não cometeu.
É, por isso, fundamental que os mais velhos adotem mecanismos de solidariedade intergeracional.

Então, vamos dar oportunidades aos jovens portugueses. Com o aproximar das eleições autárquicas teremos uma excelente oportunidade para lhes demonstrar que tudo isto também é com eles, que também eles têm uma palavra a dizer sobre o seu próprio futuro. Que contamos com eles para construir um modelo de sociedade onde se possam emancipar, ter o seu lar, criar as suas próprias famílias, com empregos dignos, onde possam acrescentar valor e ser devidamente reconhecidos por isso.

Escolham-se, para tal, os melhores! Os mais bem preparados, os mais influentes, os mais participativos, os mais críticos, os que têm mais mundividência e ideias para mudar o atual estado de coisas. É cabalmente errada a visão de que nenhum jovem tem experiência ou currículo, capacidade ou competência para ser um líder do presente só porque é jovem.

A minha geração tem provado ser feita de mulheres e homens de garra e de determinação! Tive o privilégio de conhecer milhares deles ao longo da minha vida: que trocam o seu individualismo pelo voluntarismo. Falam várias línguas e tratam o mundo por tu. Não têm medo do "não" e trocam o certo pelo incerto porque almejam, a cada instante, ser mais e melhor. A minha geração é arrojada e corajosa. É a geração que abandonou o conformismo e inaugurou o empreendedorismo e que, por isso, faz da sua vida um passeio de felicidade e bem-estar.

Esta é a geração que não merece esperar mais, a bem da nação!

Deputada do PSD

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