Por mais acesso dos médicos à Ciência

O conhecimento médico está em permanente atualização. Os tratamentos das patologias vão mudando à medida que se descobrem novos medicamentos, novas tecnologias geram novos testes de diagnóstico, descobrem-se novas causas de velhos problemas ou que alguns procedimentos afinal não trazem o benefício esperado.

A aprendizagem contínua faz parte da vida profissional dos médicos. Contudo, no meio das múltiplas tarefas e solicitações diárias, não existem períodos previstos para a atualização de conhecimentos. Além disso, falta muitas vezes acesso aos recursos que necessitamos para o fazer.

A Medicina Baseada na Evidência preconiza que o médico conjugue os valores e preferências do doente, a sua experiência (e contexto) e a "melhor prova científica disponível" -- o que atualmente significa consultar recursos online que resumem os melhores e mais atuais estudos científicos. Mas estes recursos estão disponíveis de forma irregular no nosso país.

As plataformas de resumos de estudos científicos online parecem-nos muito úteis, mas nunca tinha sido estudado o seu impacto na resposta a dúvidas clínicas dos médicos. Para o perceber, foi constituída uma equipa de investigação, composta por médicos de família e investigadores do Comprehensive Health Research Center (CHRC) e da NOVA Medical School/ Faculdade de Ciências Médicas.

No estudo que desenhámos e realizámos, recolhemos mais de 200 dúvidas de médicos e internos de Medicina Geral e Familiar. Procurámos saber quantas respostas conseguíamos encontrar para responder a estas dúvidas nas fontes de Medicina Baseada na Evidência online recomendadas. A taxa de respostas encontradas foi superior ao antecipado: mais de 90% das dúvidas dos médicos parece ter resposta em resumos de estudos científicos online, com um tempo de pesquisa médio de 4 minutos.

A grande maioria das respostas foi encontrada em plataformas online de sumários clínicos (BMJ Best Practice, DynaMed, UpToDate), que são as fontes mais resumidas a que atualmente temos acesso e que têm a grande vantagem de integrar no resumo uma avaliação da qualidade e rigor dos estudos.

Defendemos que os médicos devem ter sempre acesso à evidência científica mais recente e robusta quando estão a realizar consultas. Nem sempre é possível termos o mesmo grau de certeza em relação a todas as recomendações que fazemos e este pensamento crítico é essencial. Os resultados do nosso estudo podem motivar os médicos de família e internos de especialidade a utilizar mais plataformas de sumários clínicos -- mas é importante garantir que haja condições de tempo e recursos para que o possam fazer.

Este trabalho pode também fazer-nos repensar a educação médica, uma vez que o foco do ensino da Medicina tem sido a avaliação crítica de artigos científicos, relevante, mas dificilmente exequível no contexto de consultas médicas, em que o tempo escasseia.

Finalmente, o estudo alerta os decisores em saúde para a importância do acesso livre pelos profissionais do setor a estas fontes. Há cerca de cinco anos, existiu o plano de garantir acesso a estas plataformas a todos os cidadãos portugueses, numa iniciativa da Ordem dos Médicos para aumentar a literacia em Saúde em Portugal, que, contudo, não chegou a avançar. Um melhor acesso à Ciência melhora a saúde de todos.

Docente convidada da NOVA Medical School

Investigadora no Comprehensive Health Research Center (CHRC)

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