Politi-poleiros

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Nota-se a léguas que Portugal já não é um país soberano. Quando um suposto Estado-Nação se pode dar ao luxo de estar meses e meses consecutivos (lembram-se que os casos e casinhos já estavam ao rubro em janeiro, não é?) enredado em teatro-revista, ópera-bufa e novelita mexicana fica por demais patente que Estado não há e Nação tão pouco. Desfilam as intermináveis comissões parlamentares, desfiam-se hordas de fofocas televisivas (comentário político é outra coisa, já rara), marcham dias e dias sem fim de uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma... isto só pode ser um protectorado, uma colónia.

Se a política tem horror ao vazio, neste anexado preenche-se vazio com oco, nada com vento, vácuo com vão. Só assim é possível estar o ano todo sem praticamente uma linha ou uma palavra sobre política de saúde e de educação, económica e financeira, política de defesa e segurança, política externa. Tem restado a politiquice, os politiqueiros, politi-poleiros, politicazinha... mas política e políticas? Zero. Está tudo já decidido, definido e determinado pela UE, pela NATO, pela OMS, pelo FMI. Sobra-nos o tempo para a calhandrice e a escandaleira. É o velho problema de quem não tem nada para fazer.

Note-se que neste ror de tempo interrogando Pinheiros, Galambas e quejandos só muito marginalmente se discutiu a TAP (talvez o PCP tenha tentando). Já sobre a magna questão do SIS dificilmente se alcançará alguma conclusão e acerca do modus operandi deste executivo nada de novo se acrescentou. Os portugueses ficaram suspensos a escutar o reality show dos telefonemas, dos diz-que-disse, da porrada, mesmerizados com a fajardice e a boçalidade mas, convenhamos: isto há muito que é assim e assim continuará. A qualidade política e até técnica, o zelo, o sentido de missão dos nossos eleitos tem vindo a decair e se se nota mais no PS é universal neste espectro português (e não só) - se fosse o PSD sentando naquela sala de audiências o espectáculo degradante não seria diferente. Nepotismo, aparelhismo, caciquismo, são os nomes do meio destes partidos que, em nada mandando e nada decidindo, advieram aviários de políticos profissionais cuja dedicação exclusiva consiste em granjear votos para concelhias, distritais e afins... para depois roubar os do povo.

É lamentável que não exista metade da audiência quando os debates e contendas passam tangentes ao magma político? Claro, mas é inevitável que assim seja posto que, como dito, aí o confronto é só na crosta. Há mais densidade e emoção na novela das 18 do que nos filmes pretensiosos e ininteligíveis de susposta dialéctica hermenêutica solipsista sobre décimas e vírgulas onde os intervenientes concordaram em discordar.

Verdade seja dita: o PR pode não dissolver a assembleia mas o país lá se vai dissolvendo, lá se vai diluindo até à dissipação final. Enquanto se esfarela a credibilidade das instituições, da própria democracia, e do Estado em si mesmo; enquanto se propagandeiam as melhorias da economia para os ricos e sobem os lucros pornográficos da banca, o povo sofre duro sem conseguir pagar comida e casa. Adaptando as palavras de Manuel António Pina - isto não é nem o princípio nem o fim do mundo. É só demasiado tarde.

Ai meu amor, minha terra, que serias se vertêssemos um fio da nossa inteligência e da nossa veia a construir Portugal?


Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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