Pobreza - Doença - Pobreza

É preciso falar sobre pobreza. Pois, são muitos os portugueses que estão em risco de pobreza ou de ficarem na condição de socialmente excluídos. Estimativas já de 2022 calculam que são mais de 2,3 milhões de pessoas. O equivalente 22% da população. Uma dimensão incompreensível em regime democrático. Inadmissível. Intolerável. Quase 50 anos depois da Aclamação da Democracia, ninguém pode aceitar tal magnitude da pobreza. Nem concordar com a sua persistência. Nem ser indiferente a tanta desigualdade.

Reveja-se a História.

A relação da pobreza com a doença é, há muito, conhecida. É geradora de um círculo vicioso, traduzido por um processo infernal: os pobres adoecem mais vezes e uma vez doentes, mais pobres ficam. Por outras palavras: a pobreza é causa de doença e a doença é causa de pobreza.

Aliás, o próprio conceito de Saúde Pública nasceu, em meados do século XIX, durante a Grande Fome que ocorreu na Irlanda, no seguimento do aparecimento, inesperado, de uma praga que destruiu as plantações de batatas. Como as batatas eram a fonte alimentar principal dos trabalhadores irlandeses, a sua falta provocou uma imensa tragédia, traduzida por doenças, pela elevada mortalidade e pela emigração massiva. Na altura, um milhão de pobres morreram e mais de um milhão emigraram, muitos deles para a longínqua América. Um quarto dos habitantes da Irlanda ou morreram ou fugiram da fome.

Na mesma época, a Oriente da Irlanda, do outro lado do Canal que separa as ilhas, a situação de saúde das classes trabalhadoras de Inglaterra, sem a gravidade da Crise da Fome, assumia proporções impressionantes.

Friedrich Engels, que com Karl Marx viria a escrever muitas obras, publicou, em 1845, o célebre livro sobre A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra, baseado nas observações que fez durante a sua demorada permanência em Manchester. No tempo da rainha Vitória, exemplo de cidade altamente industrial, no auge da energia a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão nas unidades têxteis. Mas, cidade marcada pela miséria.

A consciência pública das deploráveis condições de vida do operariado inglês, marcou, historicamente, o nascimento da Saúde Pública como importante setor do Estado. A primeira Lei de Saúde Pública foi aprovada em 1848 (Public Health Act). Estipula, entre outras normas inovadoras, que nas localidades com taxa de mortalidade geral acima de 23 por mil, deviam ser criadas entidades para superintenderem em matéria de Saúde Pública, em articulação com o organismo central que foi instituído, igualmente.

Também em Inglaterra, mas já no Século XXI, o especialista em Saúde Pública, Michael Marmot, demonstrou a existência de um gradiente social, gerador de um fosso (gap) que separa ricos e pobres. Verificou que os primeiros sinais de Alzheimer aparecem 15 anos antes em pobres, quando se compara uma amostra representativa de pessoas com rendimentos altos, por um lado, com uma amostra, também representativa, de pessoas de baixos rendimentos, por outro.

Moral:
Ninguém pode ficar em sossego. É preciso falar de pobreza. Mas, antes de tudo, fazer mais para a combater. Uma questão de responsabilidade.

O mais célebre dos emigrantes terá sido Patrick Kennedy que nasceu na Irlanda, em 1823, e viria a morrer nos Estados Unidos da América, em Boston, em 1858. O presidente John F. Kennedy era seu bisneto.

Ex-diretor-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

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