Pobre País rico…

Pobre de um País que se deixa empobrecer porque morre um dos seus, quando sente que fica mais pobre porque faleceu um dos seus mais ilustres.

Um País fica mais pobre quando morre um de nós, comum cidadão que deixa um pouco de si somente para o seu círculo.

Um País fica mais pobre quando um jovem nos deixa prematuramente por efeitos de doença.

Um País fica mais pobre quando um acidente leva a vida de quem ainda teria muito para percorrer.

Um País fica mais pobre quando o efeito das drogas ilícitas (ou lícitas como o álcool!) transforma a vida num inferno.

Um País fica mais pobre quando uma Mãe ou um Pai, seja porque razão fôr, deixa órfãos os seus Filhos, isso sim, é empobrecer um País, cortar-lhe a Vida quando a Vida está a acontecer!

Um País enriquece quando recebe, pela morte de quem deixou obra e exemplo, um legado de conhecimento, de causas, de perspectiva de futuro, de emoção colectiva (a individual fica com quem teve oportunidade de se enriquecer pelo contacto directo com quem finou).

O País ficou mais rico espiritual, culturalmente, em emoção comum, com o legado de Camões, de Eça, de Saramago, de Egaz Moniz, de João Lobo Antunes, de José Afonso e de tantos e tantos outros que enriqueceram Portugal com o conhecimento, com as causas, com o futuro, principalmente com o futuro, porque a obra que foram idealizando e realizando em vida activa, foi se transformando em intemporal, fruto da vivência que foram conseguindo transmitir.

O Presidente Jorge Sampaio faleceu há poucos dias (não gosto dos termos "ex-Presidente" ou "antigo Presidente", prefiro a fórmula americana de continuar a intitular de Presidente todos os que o foram, mantendo vivo o respeito pela Instituição que representaram, que representa o País, e o País representa-se pelos seus Presidentes) deixando um legado de militância de grande qualidade cívica.

Não tendo afinidade pelas suas opções políticas, tenho uma grande afinidade pelas suas opções de educação, de instrução e de fraternidade, a julgar pelos testemunhos de quantos com ele conviveram (nunca tive a oportunidade de falar com ele).

E foram muitos os que, manifestando o seu pesar, por entre os elogios com que querem dignificar mais a Vida de quem nos deixou, referiram ter o País ficado mais pobre.

Não, não ficou. Ficou mais rico.

Quando uma pessoa como o Presidente Jorge Sampaio deixa o convívio dos vivos, deixa também motivos para que se elogie a obra, a vida, o legado.

Os elogios, para não serem só palavras vãs de quem os profere, têm de ser merecidos e consubstanciados em actos e acções, e são essas acções e esses actos que enriquecem o País, pois são o legado de quem trabalhou para que essa riqueza deixada pudesse ser pertença de todo um Povo.

Entristece-me a morte seja em que fase fôr da Vida de qualquer de nós, e compreendo a sensação de perda que pode carregar.

Sinto-me sempre mais pobre quando que sei que morreu quem ainda não viveu, mas sinto que o País fica mais rico quando lhe é deixada a oportunidade de poder usufruir em pleno o legado de quem, como cantou Camões:

"E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando"...

O Presidente Sampaio deixa obra valerosa, enriquecedora do seu País, de um País que às vezes se deixa empobrecer não valorizando a riqueza que lhe foi legada por pessoas que, ao se libertaram da lei da morte fruto da obra construída, enriquecem Portugal.

Bem haja.

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