Petliura, Konovalets e Bandera. Breve história do nacionalismo ucraniano

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Nos nossos dias, logo que se fala de nacionalismo ucraniano, há de imediato a tendência para se estabelecer uma associação com a extrema-direita e o nazismo. Ora uma análise mais aprofundada ao tema permite-nos concluir que, historicamente, é muito redutor apenas uma simples ligação à extrema-direita. Ou seja há mais vida histórica para além dessa ideia.
Não que o passado histórico da Ucrânia não tenha infelizes episódios de ligações e alianças com forças da extrema - direita, com o nazismo e seja até responsável pelo extermínio de judeus. Mas vejamos o contexto histórico em que esses factos aconteceram. Há desde o final do século XIX três grandes protagonistas do nacionalismo ucraniano, nomeadamente, Petliura, Konovalets e Bandera. Todos eles foram nacionalistas, mas todos eles lutaram pela libertação e independência da Ucrânia.
Vejamos então como!

Symon Petliura, que viveu entre 1879 e 1926, foi jornalista, ministro da Guerra e depois Presidente da Ucrânia, tendo formado o Exército Popular Ucraniano, que actuou de 1914 a 1918. Petliura fundou a organização UPR, Ukranian People Republic, que declarou a independência do território que é hoje a Ucrânia, em Janeiro de 1918. A UPR foi uma ferramenta fundamental na resistência ucraniana ao domínio soviético. Contudo, Petliura foi também líder de duvidosos grupos armados constituídos por pretensos socialistas revolucionários, pequenos comerciantes e criminosos. Grupos que protagonizaram tentativas de assassinato e destruição do partido bolchevique e dos seus simpatizantes durante a guerra civil russa. Contudo, de certa forma, a sua acção teve, nalguns casos, como finalidade última a libertação da Ucrânia, numa espécie de exercício onde "os fins justificam os meios". Petliura e a UPR acabaram derrotados pelos bolcheviques no final do ano de 1920, tendo o território da Ucrânia caído no domínio soviético.

Yevhen Konovalets, o segundo protagonista do nacionalismo ucraniano, viveu de Junho de 1891 a Maio de 1938. Foi político e militar e criou o movimento nacionalista ucraniano. Preso pelos russos em 1915, fundou o batalhão Galego, que em Novembro de 1917 assumiu o controlo de Kiev e derrotou a ofensiva militar soviética comandada por Antonov Osienko. Konovalets foi responsável pela fundação da UVO, que foi o braço armado da resistência ucraniana contra a ocupação da Ucrânia pela Polónia e pela Rússia bolchevique. Em 1929, em Viena, Konovalets, dinamizou o Congresso dos Nacionalistas Ucranianos onde nasceu a OUN (Organização de Nacionalistas Ucranianos), cujo objectivo maior era a independência da Ucrânia da influência soviética, através da luta armada. Knonovalets acabou exilado em Roterdão onde foi assassinado a 23 de Maio de 1938, pela NKVD (antecessora da KGB), através do rebentamento de uma bomba dissimulada numa caixa de chocolates que lhe foi entregue por um agente daquela polícia politica. Já na época eram bizarros os métodos da polícia soviética!

Finalmente, o terceiro protagonista do nacionalismo ucraniano, Stepan Bandera, viveu de Janeiro de 1909 a Outubro de 1959. Liderou a Organização dos nacionalistas ucranianos e o seu braço armado, o Exército Insurrecto Ucraniano. Bandera lutou contra a ocupação da Ucrânia pela Polónia e foi condenado a prisão perpétua pelo assassinato do Ministro do Interior Polaco, Bronislaw Pieracki. Foi mais tarde libertado por ter aderido à aliança Germano - Soviética, durante a segunda guerra mundial e na invasão da Polónia. Bandera foi colaborador dos nazis, mas foi também preso por esses mesmos nazis, quando proclamou o Estado da Ucrânia, em Lviv, a 30 de Junho de 1941. Ao recusar-se a anular esta proclamação foi levado para o campo de concentração de Sachenhausen, próximo de Berlim. Com a chegada do ano de 1944 e das tropas aliadas Bandera foi ibertado e acabou por se fixar na Alemanha Ocidental. Ali fundou o Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia, tendo recebido a colaboração de forças anticomunistas e dos Serviços Secretos Ingleses. E, novamente, na tradição do modus operandi soviético, foi assassinado por agentes do KGB em Munique em 1959.

É portanto fácil constatar, seguindo a trajectória política destes três principais protagonistas do nacionalismo ucraniano, que a luta pela autonomia e independência da Ucrânia é uma história com quase duzentos anos. Sem dúvida uma história atribulada, com alianças e conluios com forças pouco recomendáveis, conivências com nazis, assassinatos de judeus por via da influência germânica e alianças esporádicas com forças soviéticas. Mas neste caldeirão da história ucraniana, e do seu território, há uma linha comum que atravessa toda a sua existência. E essa linha é uma vontade férrea e persistente da Ucrânia ser um país autónomo e independente.

Uma vontade que hoje está de novo presente na forte resistência ucraniana à invasão das tropas de Putin.

antoniocapinha500@gmail.com


Jornalista

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