Peste, água, fogo

Innerarity escrevia, há uma década, sobre a atual "coligação dos vivos" (O Futuro e os Seus Inimigos), pensando num futuro cada vez mais difícil de prever e de controlar, desde logo pela nossa imediatez e curto prazo da decisão política e a centrifugação do tempo de pensamento e de decisão, distantes de uma ideia de solidariedade intergeracional para o futuro. Ainda muito antes de haver covid-19. E ainda antes de uma urgência tornada mais premente, mas anunciada, passe a redundância, em torno da pressão sobre o ambiente e as alterações climáticas.

No nosso contexto ocidental, o último século foi basicamente erigido sobre uma "coligação dos mortos" e não dos vivos. Resultado de duas Grandes Guerras, que desencadearam o reorganizar do mundo como o conhecemos hoje, programas nunca antes vistos de fomento económico e de desenvolvimento, a descolonização do planisfério pelas ditas potências europeias, emigrações e imigrações maciças e uma industrialização europeia e americana aceleradas pela paz e pelos rescaldos da guerra.
O mundo, entre os anos 1940 e 70, reconfigurou-se de forma global. E voltou a fazê-lo, nas décadas seguintes, em virtude do desenvolvimento tecnológico acelerado, da autonomização de novos espaços económicos, devidamente monetarizados, e das novas modalidades de circulação de informação, pública e privada.

Chegámos assim ao século XXI numa dúvida decisiva: estamos ainda reféns de quadros mentais e existenciais anteriores, mas intuímos que a realidade é já distinta e desadequada a essa pauta antiga; e queremos (ou não, já que a rutura foi sendo cultivada e alimentada) que a tecnologia se mantenha como sempre a configurámos, ao nosso serviço e sempre de acordo com a nossa vontade, mas temos agora possibilidades tecnológicas (e concretizações) que nos ultrapassam enquanto vontade coletiva, ou seja, comum, identificada com um poder, o poder.

Ninguém, creio, duvidará de que o século XXI será o tempo de afirmação definitiva de novos espaços e novos poderes globais, desde logo a China. Seria estranho que não o fosse. E que a tecnologia que usamos e da qual dependemos hoje, incremental a cada dia, nos tornará de alguma forma mais "indiferentes à diferença" e globais na nossa projeção e quotidiano, pelo menos funcional - distinto será dizer se o seremos também nas nossas convicções e entusiasmos íntimos.

Seria bom também recordar que a China já foi uma potência global quando essa nomenclatura ainda não existia, desde logo nos séculos XIV e XV, quando os navegadores chineses cruzavam o Pacífico e o Índico e estabeleceram rotas comerciais e civilizacionais que ainda hoje persistem, pouco divulgadas pela história ocidental. Para nós, portugueses, seria bom, por exemplo, recordar que, ainda nos séculos XIX e XX, a forte presença "externa" no Timor português era chinesa, não portuguesa... Os chineses detinham, legitimamente, desde há séculos, o comércio e a economia daquele território. Os portugueses, poucos, eram apenas uns funcionários acomodados ao sol ou simplesmente degredados para cumprir a sua pena funcional...

No brasão da cidade de Amesterdão coexistem ainda hoje três "x", significantes dos três grandes inimigos históricos da cidade: a peste, a água e o fogo. Esses foram os grandes inimigos clássicos do Ocidente, na verdade... A peste: estamos num contexto que a recorda bem, a nós que nos sentíamos estruturalmente imunizados, sem o sabermos, pela nossa superioridade desde logo tecnológica, o que foi bem posto em causa em 2020. Água e fogo: como sabemos (ou deveríamos saber), são "inimigos" intemporais e com os quais, mais tarde ou mais cedo, teremos de lidar. Vivemos num mundo em que estes elementos, que procuramos condicionar há séculos, podem voltar a ser uma ameaça direta e imediata. Clima, ação humana, destruição ecossistémica: tudo contribui para que sejamos o que sempre fomos, sujeitos ao que sempre estivemos. Deveríamos portanto pacificarmo-nos com o que nos contraria intrinsecamente - com uma maior sabedoria prudente, sem pena e sem dor.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG