Pensar o futuro

Vivemos, nos três últimos anos, duas crises de uma dimensão extraordinária, que ninguém podia prever e que mudaram definitivamente o rumo do desenvolvimento mundial.

Tanto a pandemia como a guerra, para além dos enormes dramas que nos fizeram viver, tornaram evidente que a estrutura da globalização estava a seguir um caminho não sustentável e que o futuro terá de passar por uma profunda reformulação da das bases em que assentava a economia global.

A excessiva dependência de um país ou de uma região como fornecedores revelou-se extraordinariamente limitante e perigosa para a sobrevivência de algumas economias. Em alguns casos pelo desinvestimento nas suas estruturas produtivas e outras por anularem o estabelecimento de alternativas aos fornecimentos de energia e outros fatores de produção, os países encontraram-se, de um momento para o outro, nas mãos de terceiros com interesses antagónicos aos seus.

A crença numa sociedade mundial que se desenvolve em paz e em que todos se ajudam para o desenvolvimento provou não ser mais do que uma forma de alguns convencerem os outros a entregarem-se ao seu poder.

A convicção de que podemos colocar a capacidade produtiva de um lado do mundo e a capacidade consumidora do outro, para além das enormes injustiças que criamos, provou não ser a solução de equilíbrio que precisamos para o nosso desenvolvimento.

É por isto que estamos já a assistir a uma reformulação da globalização.
Será uma globalização em que os países darão mais importância à sua defesa e segurança, uma globalização de maior proximidade, de maior polarização e uma globalização com maior diversificação em cada país.

Será baseada numa maior proximidade da produção e será baseada no reforço da autonomia.

Isto quer dizer que o Mundo já está a trabalhar em força no estabelecimento deste caminho e que as decisões já estão a ser tomadas por todo o lado, num momento em que no nosso país aprovámos um orçamento exclusivamente baseado na formulação anterior da globalização.

A teimosia dos nossos dirigentes contrasta com a velocidade das mudanças que ocorrem.

Neste momento já estamos a receber informação sobre a deslocalização de grandes empresas da Ásia para a Europa e Estados Unidos e estamos a perceber a deslocalização de empresas do leste europeu para o ocidente da Europa.
Estamos a ver projetos de investimento industrial e agrícola em todos os países ocidentais e planos estratégicos para acompanhar esta mudança o da globalização que se antevê.

E em Portugal... nada.

Nem reforma fiscal para que nos tornemos atrativos ao investimento estrangeiro, nem debate público sobre a mudança das características industriais e agrícolas do nosso país, nem planos de produção que assegurem a autonomia mínima daquilo que necessitaremos para garantir a qualidade de vida da nossa população.
Nada!

Será que devemos voltar a promover a produção massiva de trigo em Portugal para assegurar o pão nas mesas dos portugueses? Quais serão as indústrias que precisamos de promover para termos essa autonomia? De que produtos precisamos ou vamos precisar? Que mercados serão essenciais para mantermos a nossa intervenção na globalização?

Ninguém sabe.

Mas pior ainda é que ninguém quer saber.

Para o governo é mais importante discutir a eutanásia do que a vida dos portugueses. Importa mais arrecadar mais impostos do que resolver a inflação. Importa mais investir num Estado obeso do que promover a produção.
É tempo de pensar o futuro e de dar a Portugal a oportunidade de viver melhor nesse futuro.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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