Pensando a política

Maria de Lourdes Pintasilgo, a única mulher que chefiou um Governo em Portugal, decerto nunca se terá cruzado com Paulina Chiziane, a escritora moçambicana que este ano venceu o Prémio Camões, mas a conversa imaginária entre as duas teria sido fascinante e, decerto, acompanhada de boas gargalhadas. Na entrevista desta semana ao semanário Expresso, Paulina Chiziane fala da sua relação de amor e conflito com a língua portuguesa: como as palavras ainda são habitadas por visões do mundo colonial e sexista.

Recordei a recusa (muitas vezes gorada) de Maria de Lourdes para assinar como "O Primeiro-Ministro" e a estranheza que provocava, nos idos de 79-80, uma mulher em Portugal assumir esse cargo. Os bons conselhos iam no sentido de que se comportasse como um homem, mostrando não haver diferença. Mas ela queria fazer a diferença e pagou uma pesada fatura no seu país ("utópica", "idealista", "ingénua" foram os epítetos mais delicados).

E, no entanto, é com espanto que revemos os seus escritos (alguns notas manuscritas de intervenções sempre bem estruturadas) pela capacidade de pensar e prever o futuro. Esta semana Maria de Lourdes Pintasilgo celebraria 92 anos e, apesar de o imenso espólio já se encontrar publicado ou disponível, o seu pensamento continua pouco conhecido, não obstante o lastro filosófico que comporta. Pouco antes da sua morte, em 2004, havia lançado as bases da Fundação Cuidar o Futuro (onde se podem consultar obras e documentos), título do Relatório da Comissão Independente sobre População e Qualidade de Vida, a que presidiu entre 1992 e 1997, a convite das Nações Unidas. Nesse Relatório, que tem como subtítulo "Um programa radical para viver melhor", afirma-se com desassombro que o problema do ambiente é tratado com condescendência pelos políticos e que o acordo unânime sobre o princípio da sustentabilidade na relação com a Natureza "fica bloqueado pela lentidão excessiva na criação de tecnologias capazes de reduzirem a pressão sobre o ambiente".

Maria de Lourdes teve a preocupação de constituir esta Comissão em paridade entre norte e sul, homens e mulheres para que pudesse expressar uma visão abrangente. Esta diversidade introduziu também uma visão holística sobre população que foi muito além dos temas habitualmente tratados e, por isso, as análises e as conclusões foram tão disruptivas (embora muitas delas estejam hoje em dia no centro dos nossos debates e preocupações). O Relatório mostrou a necessidade de um novo modelo industrial capaz de modificar os esquemas de produção e os esquemas de consumo. Como refere no Prefácio, "o escândalo da pobreza absoluta e da irracionalidade dos padrões de consumo intrinsecamente ligados ao crescimento da população só seria ultrapassado por um novo tipo de crescimento económico." Não é o que andamos a discutir? Outra ideia-força é a de que a qualidade de vida está diretamente relacionada com a diminuição da sobrecarga que infligimos ao Planeta. Numa intervenção que terá feito em final dos anos 90 no Brasil e intitulou "A Revolta do Planeta", conclui "Lavoisier está encerrado: não é verdade que na Natureza, nada se cria nem se perde".

Numa casa comum quase a atingir 8 mil milhões de habitantes (nos primeiros quinze dias, nasceram 7 milhões contra menos 3 milhões de mortos), casa vez mais temos de assumir políticas também comuns. Nós, os do norte, continuamos a pensar o mundo por olhos que preferem ignorar a catástrofe. A desproporção entre a população dos dois hemisférios é também uma das razões dos movimentos migratórios, tão ancestrais e intrínsecos como a Humanidade.

Por mais que a palavra cidadania se tenha tornado polémica, importa que ela recupere o sentido essencial de vida em comunidade e contrarie a tendência para a fragmentação e o individualismo, princípio de todas as perdas. Por isso, Maria de Lourdes Pintasilgo valorizou tanto o contributo das mulheres renovando a sua lógica ancestral do cuidado e da atenção aos outros num modo de pensar transversal. Cuidar o futuro recomeça todos os dias. Esse é o sentido da política.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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