Pelo regresso do Rali Lisboa-Dakar

Mais um ano passou em que quando ouvi falar do "Paris-Dakar" me senti perdido. O cérebro apresentava a rota de Paris a Dakar, mas na verdade não seria aí e também não sabia se continuava no Chile/Argentina ou se já teria mudado de poiso. Na verdade o Paris-Dakar perdeu todo o interesse quando o "Lisboa-Dakar" de 2008 foi cancelado, por ameaça terrorista da Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), que fazia na altura da Mauritânia um posto de comando exclusivo para boicotar este evento desportivo.

Portugal ao resgatá-lo iria muito para além de um evento desportivo. No momento presente do Sahel e em particular do Mali, com franceses em retracção e russos em expansão, Portugal poderia actuar neste xadrez com jogadas de softpower dentro do grande jogo regional. Já com efectivos no terreno e engajados na transferência da Barkhane para a Takuba, recuperar o "Lisboa-Dakar" envolveria toda a tropa da defesa e segurança portuguesa. O regresso deste rali ao percurso original significaria uma securização da região, desde 2008, e Portugal, com o nome da capital na cabeça do evento, arrogar-se-ia desde logo em assumir a concepção securitária da prova, com poderes de coordenação ao longo da mesma. Esta frente, junto com a diplomacia, poderiam mover montanhas ao longo deste ano incerto no Mali e Sahel Ocidental, do qual não podemos esquecer a Mauritânia, um parceiro em cujas nossas dependências são crescentes e sempre negligenciado por nós. A influência que a organização deste rali poderá significar, vai ao encontro do que já publiquei aqui anteriormente. Ou seja, no contexto dos 200 anos de atraso em influência, nesta África não tradicional, que temos para franceses, espanhóis e italianos, são coelhos destes tirados da cartola que nos poderão alavancar para ambições mais ambiciosas. Recuperar o "Rali Lisboa-Dakar" não é desporto, é política e da boa.

Uma frente com diplomatas, militares e polícias tem tudo para falhar, excepto se se tornar num desígnio nacional. Foi assim com Timor, foi assim com a Expo'98, foi assim com o Euro 2004. Poderá ser assim com o Lisboa-Dakar, com diplomatas a darem seguimento político às recomendações vindas do terreno. O terreno, na vontade de demonstrar que a vida continua e de que os terroristas não ganharam, coordena-se e supera-se. Este também é o seu desígnio nacional. Os países envolvidos têm aqui janela para mostrarem ao mundo que o terrorismo não passará.

Desde 1979 que o Paris-Dakar é selo de prestígio, nunca foi desporto, antes uma das principais lanças francesas em África e que ainda colava com cuspe a FranceAfrique. Imagine Portugal, a partir de 2023, fazer do Lisboa-Dakar a âncora que precisa para o norte de África/Sahel e cavalgar de Bissau até ao Níger. Ganhar profundidade estratégica, que é o que precisa nesta "nova África", mais próxima, mais desconhecida.

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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