A direção do Diário de Notícias informou-me que recebeu uma queixa onde sou acusado de ter cometido um plágio na última coluna que escrevi, na quarta-feira..A acusação especifica este parágrafo:."Dentro do PCP, espero que qualquer confusão que pudesse ainda existir tenha ficado desfeita e se conclua o seguinte: por muito que alguns procurem encobrir, a guerra na Ucrânia - uma guerra que urge parar e que nunca deveria ter começado - é expressão da escalada de confrontação dos EUA, da NATO, da União Europeia e da Rússia, em que a Ucrânia é usada como instrumento da estratégia do imperialismo"..A comparação, para sustentar a acusação de plágio, será com esta frase, dita na Conferência Nacional do PCP do último fim de semana:."Por muito que alguns procurem encobrir, a guerra na Ucrânia - uma guerra que urge parar e que nunca deveria ter começado - é expressão desta escalada de confrontação dos EUA e da NATO contra a Rússia, em que a Ucrânia é usada como instrumento da estratégia do imperialismo norte-americano.".A acusação contra mim confunde, portanto, plagiar com glosar..Plagiar é copiar ilegitimamente um texto, sem citar a fonte, assumindo a sua autoria. É condenável..Glosar é repetir uma frase, modificando-a ligeiramente, para obter dela uma interpretação diferente. É lícito, é normal e foi o que fiz..Vejamos as diferenças entre as duas frases:.Na frase original a Rússia não é colocada como protagonista ativa da confrontação com os EUA e NATO , mas apenas como recetora dessa confrontação. A minha frase coloca-a nesse patamar..Na frase original a União Europeia não é colocada como uma das potências que contribui para a escalada da guerra. Na minha frase ela é alinhada nessa responsabilidade com Estados Unidos, NATO e Rússia..Na minha frase, a Rússia é colocada no mesmo pé de igualdade de outras potências como responsável pela escalada da guerra. No texto original isso não acontece, apenas é referido que a guerra "nunca deveria ter começado", o que indiretamente critica a invasão russa da Ucrânia..Na frase original é dito que a Ucrânia é vítima do imperialismo americano. Eu digo apenas que é vítima do imperialismo, admitindo, portanto, a existência de outros interesses imperiais para além do dos Estados Unidos..São, portanto, quatro diferenças substanciais que modificam radicalmente a mensagem transmitida, apesar das semelhanças da formulação - e fiz isso intencionalmente..A minha ideia foi, propositadamente, utilizar uma formulação clássica do PCP, o jargão e o fraseado que esse partido tem usado para definir a guerra da Ucrânia para, à luz das declarações recentes de Paulo Raimundo (o tema do artigo), feitas em duas entrevistas após a Conferência, reescrevê-la, introduzindo os recentes elementos políticos que, na minha interpretação, as declarações do novo secretário-geral do PCP corporizam, tal como explico no resto do artigo..Note-se que, neste parágrafo sob suspeita, começo por dizer: "dentro do PCP, espero que qualquer confusão que pudesse ainda existir tenha ficado desfeita e se conclua o seguinte:...". Este interlúdio serve para, precisamente, indicar que o que se seguia era uma formulação que, seguindo o cânone do discurso habitual dos comunistas portugueses, introduzisse as nuances suscitadas pelas declarações de Paulo Raimundo, desfazendo confusões anteriores..Para fazer esse exercício fui buscar uma frase de uma intervenção sobre o tema feita na parte inicial da Conferência que reproduzisse o discurso conhecido do PCP sobre este assunto. Não quis (nem quero), deliberadamente, dizer quem foi o autor por isso ser irrelevante, pois essa intervenção era a repetição de uma posição coletiva anterior e não de uma posição pessoal do orador. Achei que se indicasse o autor pareceria que queria de alguma forma estar a apontar algo a essa pessoa, quando a questão nada tem de individual..Espero que este esclarecimento retire qualquer dúvida a quem me acusa, infundadamente, de plágio.