Nessa mesma Teerão que está agora a ferro e fogo, existe o Complexo Saadabad, onde fica o antigo palácio do xá, hoje um museu, e se pode ver como vivia a família real, dos aposentos sumptuosos aos carros de luxo - Rolls-Royce, Mercedes e Cadillac eram algumas das marcas apreciadas pelo monarca. Na sala de banquetes, há uma interessante nota a destacar o jantar oferecido a Jimmy Carter por Mohammed Reza Pahlavi no último dia de 1977. O presidente americano brindou ao seu anfitrião e ao Irão, que descreveu como “uma ilha de estabilidade” no Médio Oriente. Um erro de análise, percebeu-se depois. Um grande erro.No espaço de pouco mais de um ano a partir do discurso, o xá abandonou o país, o ayatollah Khomeini regressou do exílio e a monarquia foi substituída pela República Islâmica. Carter, além de testemunhar, surpreendido, a perda de um aliado dos Estados Unidos, viu o final de mandato ensombrado pela crise dos reféns da embaixada americana em Teerão. Perdeu as eleições de 1980, e só com Ronald Reagan já presidente foi libertada a meia centena de americanos detida durante 444 dias por estudantes revolucionários, que chamavam à América “grande satã”.É essa República Islâmica fundada em 1979, e desde 1989 liderada pelo ayatollah Khamenei, sucessor de Khomeini, que está a ser abalada, desde o final de 2025, por uma vaga de protestos de dimensão inédita, inicialmente por causa da crise económica, agora já de desafio aberto ao próprio Khamenei, guia supremo, um clérigo xiita que manda mais do que o presidente, que é eleito. Entre as imagens que chegam ao mundo, furando a vigilância do regime, que até a internet bloqueou, há vários dias que, entre os slogans, são referidas palavras de ordem a favor da dinastia Pahlavi, apelando ao regresso do filho do último xá, Reza Pahlavi, de 65 anos, que vive nos Estados Unidos.Que o nome dos Pahlavi seja entoado nas manifestações, mostra por um lado o descrédito a que os ayatollahs chegaram, e também um desejo de modernidade e laicismo que, apesar de tudo, está ligado à memória da monarquia. E o candidato ao trono incentiva os protestos e imagina-se já como o futuro dirigente do país.Os derradeiros tempos de reinado de Mohammed Reza Pahlavi são retratados por inúmeros livros e também na novela gráfica Persépolis, de Marjane Satrapi, um falso olhar ingénuo. Houve modernização do país, mas também muita corrupção, e a brutalidade da polícia política, a SAVAK. Depois deu-se a esperança de quem em 1978 e 1979 foi para a rua lutar pela mudança, mas depressa ficou desiludido pelo triunfo dos defensores da teocracia, os seguidores de Khomeini que se impuseram tanto aos comunistas, como aos que ambicionavam ser possível um regime liberal, democracia até. Nas quase cinco décadas de República Islâmica, o nacionalismo persa tem sido um dos esteios do regime. Logo no início, a guerra com o Iraque, liderado por um Saddam Hussein panarabista e apoiado, na época, pelo Ocidente, foi um duro golpe para os ayatollahs, mas permitiu-lhes apostar na retórica dos persas contra os árabes, e dos xiitas contra os sunitas (Saddam era muçulmano sunita, apesar de ser presidente de um país árabe de maioria xiita). Pouco a pouco, com a paz de volta no final dos anos 1980, o regime foi também dando alguns espaços à sociedade e nas eleições controladas houve mesmo vitórias de presidentes abertos a reformas e ao diálogo com o Ocidente. Os iranianos, esses (em grande parte persas, mas que também são azeris, curdos e outros), mesmo balizados pelo regime, mostraram o vigor de serem os herdeiros de uma civilização com mais de 2500 anos. Quem visita o país fica geralmente impressionado com a cultura do povo, e também a sua afabilidade, já para não falar da beleza de cidades como Isfaão. Quem não visitou mas viu filmes dos grandes realizadores iranianos - quantas vezes às avessas com as autoridades religiosas - terá uma ideia do enorme potencial do Irão, sobretudo se o país deixar de estar envolvido em várias frentes de guerra no Médio Oriente, se se libertar das sanções por causa de ambições militares que se suspeitam ser nucleares, se deixar de estar em choque com o Ocidente.Bombardeada em 2025 por Israel e pelos Estados Unidos, a República Islâmica retaliou como pôde, mas mostrou mais fraquezas do que a retórica deixava adivinhar. Fraquezas aumentadas pelas derrotas sofridas pelos aliados regionais, fosse o Hezbollah no Líbano ou o regime da família Assad na Síria, também o Hamas em Gaza, um descalabro generalizado do chamado Eixo da Resistência, muito por causa da reação militar de Israel ao massacre do 7 de Outubro. Para um Irão que elegeu Israel como o grande inimigo foi uma clara derrota. Com as sucessivas sanções, os gastos militares excessivos e a ineficácia da máquina do Estado, a economia foi piorando apesar da riqueza petrolífera, e originando vagas de protestos. Esta vaga atual parece diferente, sobretudo mais determinada.Houve várias vezes, nos últimos anos, momentos de desafio aos ayatollahs. A resposta foi sempre muita violência e alguma tentativa de apaziguamento, fosse perante a reação a eleições de duvidosa transparência, punição contra mulheres que ousavam mostrar os cabelos ou revolta pela degradação das condições de vida. Uma resposta que parece seguir sempre a fórmula, agora também, da repressão brutal, com um número indefinido de mortos, Podem ser várias centenas, segundo ONG baseada nos Estados Unidos, a HRANA. A BBC, com recurso a testemunhos, refere hospitais incapazes de lidar com a chegada de mortos e feridos.O regime insiste em acusar os Estados Unidos e Israel de incentivar os contestatários, dizendo que querem dividir os iranianos. É não compreender o próprio povo, as razões por que está nas ruas. E temendo uma intervenção americana, volta a prometer resposta contra alvos americanos na região e contra Israel.Estados Unidos e Israel já foram aliados do Irão, antes de se transformarem em inimigos depois de 1979, e o presidente americano ameaçou intervir se houvesse um banho de sangue causado pelo regime nestes dias contra a população que se manifesta. Reafirmou-o no sábado. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netayanhu, tal como Donald Trump, já disse identificar-se com a ambição de “liberdade e justiça” do povo iraniano. E Reza Pahlavi acredita no apoio americano, e espera manter boas relações com Israel, se chegar um dia ao poder em Teerão. Quem disse que o Médio Oriente, onde política interna e geopolítica se confundem, é simples de entender? Recordo que a seguir ao 11 de Setembro nos EUA houve uma vigília em Teerão pelas vítimas.O regime iraniano mostra fragilidades, mesmo quanto reprime e ameaça os manifestantes de todo o tipo de consequências, e a contestação é mesmo muita em Teerão e outras cidades, segundo as imagens que vão sendo conhecidas. E a idade de Khamenei, 86 anos, e a ausência de um sucessor óbvio, deixa dúvidas se a República Islâmica conseguirá manter-se como está, retaliando com as suas milícias, ou se terá de fazer múltiplas cedências e depressa. Pode optar por mudar para sobreviver, contando que ainda terá alguns apoios nos setores mais conservadores do país. Pode também cair de um momento para o outro perante a crescente pressão da rua e as eventuais divisões internas, como caiu a monarquia em 1979. E, nesse caso, tudo seria possível. O filho do último xá é o oposicionista mais conhecido, mas não é o único e muito menos é consensual entre os defensores da mudança no Irão. E se a sociedade iraniana conseguir mudar o país, será certamente exigente sobre o seu futuro e sobre quem o encarnará. O nome do xá, ou do filho, ser uma palavra de ordem para mostrar revolta contra quem governa é emblemático, não significa obrigatoriamente um desejo de lhe entregar os destinos do país. O Irão pode ter mais de 25 séculos, mas o seu povo não luta para regressos ao passado. Está revoltado nas ruas porque quer um futuro diferente. Será desta vez?Diretor adjunto do Diário de Notícias