Os sem-dentes

A história conta-se rapidamente. Produzi durante algumas temporadas um programa chamado Liga dos Últimos. O objetivo era mostrar os domingos à tarde do Portugal profundo - que tanto pode ser no Alandroal como em Moscavide ou Ermesinde. Vidas onde a bola, o clube do bairro, o bolinho de bacalhau e a cerveja ocupam, de forma barata, o que sobra do tempo em que não se trabalha. Esta verdadeira aventura tinha começado pelo inolvidável campeonato de Amadores do Porto, na extinta NTV, e daí passou para os clubes em situação difícil no país todo. Uma forma de ver Portugal (e o futebol) de pernas para o ar.

Tudo correu bem até ter começado a correr mal. E bastou isto: um dia um colunista importante, a partir de um visionamento de um best-of que a RTP1 decidiu transmitir num verão (2009), bramiu contra a indignidade de se mostrarem aquelas pessoas - ainda por cima sem dentes. A seguir outro acolitou-o e depois mais um ou dois. Foi suficiente para que, passados poucos meses, no momento em que foi extinta a RTP-N (com direção no Porto) e transformada em RTP Informação (com direção em Lisboa), a coisa acabasse. O serviço público caía na lama com este Portugal.

Azar meu. A Liga dos Últimos continuou a ser repetida impreterivelmente todos os anos na RTP-Memória mas aquele Portugal, de 2011 em diante, ficou por registar.

Escrevo isto por causa dos dentes de tantos milhares de portugueses. Porque eles são o maior sinal exterior de pobreza de um cidadão. Quando esta semana o dentista me disse que um dente cerâmico custaria 500 euros - entre retirar o anterior, que partiu, mais consultas, dente provisório e finalmente o definitivo, lembrei-me deles de novo. Como podem pessoas com tão baixos rendimentos darem-se ao luxo de ter todos os dentes? E o que vemos é dramático: já não tentam sequer ter os dentes todos. Nem, pelo menos, ter alguns. Muitas vezes restam quase zero, sobretudo à frente.

Depois das notícias sobre o facto de 30% dos cheques-dentista terem ficado por usar, fui ao site do SNS compreender como é isto possível. E é, porque as condições do seu uso são bastante restritivas. Ou seja, pode aceder ao cheque-dentista, "grávidas, beneficiários do complemento solidário, crianças e jovens até aos 18 anos, portadores de VIH/SIDA e cancro oral." Ficam de fora os reformados que não estejam naquelas situações de quase pobreza total bem como muitas das pessoas que vivem apenas do seu trabalho - sobretudo os salários mínimos ou mileuristas. Já para não falar dos casais jovens com filhos. E é nisto que se percebe como o nosso SNS não é, afinal, de primeiro mundo.

Ter um problema num dente é tão má notícia como uma avaria no carro ou na máquina de lavar. E por isso mesmo é bom não deixar no esquecimento a promessa do Governo quanto ao atendimento de dentista nos centros de saúde. O investimento para criação de uma rede destas pelo país é colossal, mas se não for feito, não se está a ver quando haverá realmente um maior cuidado dentário que evite a perda dos dentes de forma tão precoce. Além disso trará vantagem de instalar mais oferta no mercado e, talvez, regular melhor o preço médio da saúde oral nas redes privadas. Não que em Portugal não seja mais barato que na média dos outros países europeus (como sabem, aliás), os nossos emigrantes que aproveitam as visitas a Portugal para tratamentos médicos. O problema é que, em geral, os portugueses ganham mesmo muito pouco. E ter dentes não deveria de ser uma opção.

Jornalista

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