Os passos escondidos

De cada vez que há um debate na União Europeia,aparece um coro a dizer que só se houver mais integração é que se atingirão os objectivos por alcançar. Foi assim, há dias, depois do Porto; foi assim no dia da Europa, em Estrasburgo; foi assim depois do Sofagateem Ancara. É sempre preciso dar mais um passo. Que não se tinha antecipado no passo anterior. É esse o problema.

O argumento é invariavelmente o mesmo. Começam por explicar que o que se prometeu mas ainda não se alcançou, na política social, na política externa, na igualdade económica ou noutra dimensão qualquer, foi porque não houve federalização, e que o que já se fez está incompleto porque só federalizando se consegue cumprir os objectivos desses desígnios. Daí que seja inevitável concluir que é necessário avançar um pouco mais. Até voltar a ser inevitável avançar de novo.

Não há mal nenhum em ser-se federalista. É tão legítimo quanto não o ser. O problema está em ir dando pequenos passos e depois dizer que só com mais integração e o passo seguinte se consegue cumprir o que se prometeu que se alcançaria com a integração e o passo anterior. É a doutrina dos pequenos passos, amplamente estabelecida em Bruxelas. Não se trata de ir aprofundando a União porque o sentimento de pertença cresce e os povos pedem mais integração e menos soberania, trata-se de ir escondendo o movimento seguinte atrás do movimento anterior. É essa dissimulação que torna o debate europeu tão equívoco.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Euro. Quem agora vem dizer que a moeda única sem orçamento comum é, afinal, um peso para as economias do sul e um subsídio escondido para as economias do norte, devia tê-lo dito antes da criação do euro. Tal como com a política externa. Primeiro, era preciso um alto representante que estivesse sentado no Conselho e na Comissão ao mesmo tempo para haver coordenação entre a orientação política e a execução. Agora, é necessário que o Conselho possa decidir por maioria e que a Comissão tenha o mesmo lugar hierárquico que o Conselho na representação externa da União. Como foi também isso que se ouviu no final da cimeira social do Porto. Não fosse a regra da maioria, o compromisso seria muito mais ambicioso. E não fosse a falta de instrumentos centrais, a declaração seria muito mais consequente. Afinal é sempre preciso mais. Mas nunca se diz quanto.

No processo europeu, pode-se decidir à partida até onde se quer ir na integração europeia, seja muito ou pouco, e depois viver com isso. Ou pode o processo ir gerando um sentimento de pertença, uma diluição das diferenças, uma integração das economias e dos povos que faça com que se vá querendo mais. É igualmente legítimo (e, por uma questão de clareza, é o que prefiro porque terá a velocidade que os povos quiserem). O que não devia ser possível, mas é precisamente o que tem acontecido, é integrar um pouco de cada vez, sem explicar que depois se dirá que agora que já se chegou até aqui é indispensável integrar um puco mais. A diferença entre um processo e o outro é que num caso, os povos vão mostrando que querem mais; no outro, os políticos vão escondendo isso mesmo.

A União Europeia foi uma óptima ideia que tem de poder evoluir. Da garantia da paz à democratização, da expansão do modelo Ocidental à procura de um novo lugar num mundo diferente. Tudo isso faz sentido. Tudo, menos a inevitabilidade do passo seguinte.

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