Os militares privados podem decidir quem governa?

Quatro membros do comando que assassinou em 2018 o jornalista saudita Jamal Khashoggi - um crítico do poder na Arábia Saudita - foram treinados por uma empresa privada de segurança chamada Grupo Tier 1, ao abrigo de uma autorização concedida pelo governo de Barack Obama em 2014 (não, não foi Donald Trump...).

Li esta informação ontem no Diário de Notícias, que cita a novidade avançada pelo jornal The New York Times.

Quatro desses comandos receberam a formação em 2017 e dois deles já tinham ido aos treinos na América entre outubro de 2014 e janeiro de 2015.

Por coincidência, também li ontem uma reportagem do dia 18 de junho do jornal The Intercept Brasil, que teve acesso a correio eletrónico e a gravações telefónicas (disponíveis em áudio no site da marca) onde se ouve alguém, que o jornal identifica como sendo o então ministro da Defesa da Bolívia, Luis Fernando López, a tentar contratar mercenários norte-americanos para impedir a tomada de posse de Luis Acre.

Acre venceu por larga margem (55% dos votos) as eleições presidenciais de outubro de 2020 e o seu partido, o Movimento al Socialismo, ganhou a maioria de deputados nas legislativas. A ideia do golpe seria manter no poder o governo de direita de Jeanine Áñez.

A dada altura um dos interlocutores de López, identificado como Joe Pereira, pede que o ministro disponibilize uns quantos aviões Hercules C-130 "para recolher o pessoal do Comando Sul na Base Aérea de Hometead em Miami" e adianta: "Posso conseguir até 10 mil homens sem nenhum problema (...). Todos das forças especiais. Também posso trazer cerca de 350 pessoas que chamamos de LEP, Profissionais da Aplicação da Lei, para orientar a polícia."

Toda esta insanidade não aconteceu e diálogos como este, na verdade, demonstram que os envolvidos estavam num vórtice de tontice.

O ponto, porém, é que nas circunstâncias certas uma operação deste tipo pode ser montada a partir da América, no país que se afirma farol mundial da democracia e da liberdade e que, no mínimo, fecha os olhos (isto se não for mesmo financiador, fornecedor logístico, cúmplice ou instigador) a tentativas de derrubar governos por meios inimigos da democracia e da liberdade. Nada aprenderam com a invasão da Baía dos Porcos, em 1961.

Tivemos um exemplo incompetente disto em 3 de maio de 2020 quando, segundo a BBC, outra empresa privada de segurança norte-americana, a Silvercorp USA, mandou 60 homens capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, contratada pelo autointitulado presidente interino, Juan Guaidó, que queria fazer um golpe de Estado.

Esta Operação Gideon acabou com oito homens mortos pelas forças armadas da Venezuela, dezenas de capturados e a credibilidade internacional de Guaidó, apoiado pelos Estados Unidos e pela União Europeia (e por Portugal, pois claro!), praticamente liquidada.

Também vi uma entrevista que Chico Buarque deu à TV247, no dia 10 de junho, em que o cantor, habitualmente nada dado a alarmismos populistas, diz estar convencido de que no Brasil o presidente Bolsonaro prepara um golpe militar, pois fala já em fraude eleitoral (à maneira de Trump) nas presidenciais do ano que vem, que Lula da Silva pode vencer...

Posto isto, atrevo-me a perguntar: qual será o nome da empresa privada de segurança norte-americana que Bolsonaro anda a consultar?...

E a ONU de António Guterres? Acha bem que militares privados decidam quem governa?

Correção:
Na semana passada, com base em várias notícias veiculadas pela imprensa portuguesa, escrevi que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) tinha partilhado dados pessoais de manifestantes com a Embaixada de Israel. Essas notícias estavam erradas e levaram-me a, involuntariamente, mentir. A embaixada foi apenas informada da realização da manifestação e foi apenas esse facto que, com razão, motivou uma reclamação à CML por parte da organização do protesto pró-palestiniano. Esta correção não altera nada à substância da opinião que aqui deixei na terça-feira passada, até por, entretanto, na sexta-feira, o presidente da CML, Fernando Medina, ter confirmado que houve partilha de dados pessoais com embaixadas em 52 casos identificados numa auditoria. O rigor, porém, obriga-me a informar os leitores deste erro, que posso corrigir graças à jornalista Fernanda Câncio, a quem muito agradeço o aviso.

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