"Os jornalistas não fazem parte do poder"

Rui Rio vai continuar a andar por aí e ele cultiva más relações com os jornalistas com o mesmo ritmo frenético com que o faz em relação a alguns companheiros do partido. Isso responsabiliza-o a ele, não serve para desculpar quem lhe responde na mesma moeda. No Expresso online, Daniel Oliveira escreveu a semana passada que "Rio teve de lidar com uma descarada oposição da comunicação social". Apontou a Rio "muitas culpas no cartório", mas concluiu lembrando que "o papel do jornalismo não é castigar quem o desrespeita". Tenho de concordar inteiramente com ele.

Não significa que os jornalistas tenham que aturar tudo aos políticos, seja quando estamos a falar da simples má educação, do inadmissível boicote ao acesso às fontes de informação ou, pior ainda, das graves pressões ilegítimas que possam pôr em causa o direito à informação. É possível fazer notícia sobre estes factos e procurar resolvê-los nas instâncias próprias. No ofício de informar, não deve haver lugar para ajustes de contas.

Sobre jornalismo político, permito-me recordar a maior lição que aprendi nesta profissão. Não na Escola de Jornalismo, nem no batente da profissão, nem no Código Deontológico, mas numa conversa com a minha mãe, mulher de uma grande sabedoria. Nos idos anos 90, depois de três anos a trabalhar no Porto, iniciei a minha carreira de jornalista de política em Lisboa como repórter parlamentar. António Guterres tinha ganho a liderança do PS e vivi essa legislatura falando com ele centenas de vezes. Sendo que era do seu próprio interesse fazer-se ouvir, encontrei do seu lado uma grande disponibilidade. Em 1995, Guterres chegou a primeiro-ministro e um dia, estando eu sozinho nos Passos Perdidos do Parlamento, passou o chefe do governo com o seu assessor e eu cumprimentei os dois com um sonoro "bom dia". David Damião respondeu, mas do primeiro-ministro não ouvi nem ai, nem ui.

Daí a minutos estava a falar por telefone com a minha mãe e ela pressentiu que o filho estava mal disposto. Tanto insistiu que lá acabei por lhe contar a história. Dela, como resposta ao meu lamento, ouvi o seguinte: "Vocês, jornalistas, deixam-se confundir com facilidade, principalmente os jornalistas de política. Como vivem e trabalham nos corredores do poder, julgam que fazem parte. Não se confundam, vocês estão aí para reportar o que andam a fazer os políticos que o povo elege. Ninguém vos encomendou estados de alma sobre a relação que mantêm com eles". De seguida, acrescentou: "Sabes que se eu passasse por qualquer primeiro-ministro na Rua Santa Catarina, dizia-lhe bom dia e, se ele não me respondesse, ficava a pensar: "coitado do primeiro-ministro vai com a cabeça tão cheia de problemas que nem me ouviu dizer bom dia"".

Aprendi a lição, mas isso não me impediu de ter uma relação de amizade com António José Seguro ou com Rui Rio, nem essa amizade me impediu de os criticar ou elogiar, quando fui chamado a opinar sobre a prestação deles como líderes partidários, mesmo que isso os pudesse incomodar. Como fiz com Cavaco, com Soares, com Sampaio, com Passos, com Sócrates, com Ferreira Leite, com Costa, com Marcelo, com tantos outros. O que nunca mais me permiti foi ter estados de alma nestas relações profissionais, fosse como jornalista, fosse como comentador. Como podia fazer diferente se, há quase 30 anos, em início de carreira, a mestra Albertina deixou ficar claro que "os jornalistas não fazem parte do poder".


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