Muitos humanistas televisivos ficaram, legitimamente, horrorizados com a violência do ataque do Hamas contra o exército israelita e contra os colonatos que há anos ocupam ilegalmente terras palestinas. Muitos civis foram mortos neste ataque. Clamam estes humanistas televisivos que Israel tem o direito a defender-se destes ataques. Mas as terras atacadas pelo Hamas pertencem à Palestina. Tem um Estado o direito de se defender quando o território que é atacado é ocupado, não é sua propriedade legitima, e pertence na verdade ao povo que ataca?.Contudo, estes humanistas televisivos não ficaram horrorizados com os bombardeamentos indiscriminados que matam civis, crianças, velhos, em Gaza. Estas matanças dizem-nos são legítimas. Umas são horríveis outras são corretas. Matar uma criança palestina está bem, matar uma criança israelita é um crime. Uma lógica trágica em que se enredam os humanistas televisivos..Desde o princípio deste ano da graça de 2023 e até ao momento do lançamento do ataque os colonos israelitas mataram mais de 250 palestinos. Os humanistas televisivos não ficaram horrorizados. Porque para este tipo de humanistas televisivos estas vidas não contam. Não são pessoas. São apenas árabes, logo infra-humanos..A retaliação israelita é legítima, a retaliação palestina ilegítima. Outra lógica sem sentido moral em que se enredam os humanistas televisivos..Basta de hipocrisia. É insuportável. Dois pesos duas medidas. Eis o humanismo transformado em comédia, instrumentalizado ao serviço da propaganda..Israel ocupa ilegalmente grande parte da Palestina. Implanta colonatos ilegais. Existem dezenas de resoluções das Nações Unidas que lhe exigem que se retire dos territórios ocupados. Não o faz e expande continuamente a ocupação. Se existe alguma lógica e alguma justiça é a que nos diz que os palestinos têm o direito a defender-se. Que têm o direito a resistir. Com violência? Sim, mas só depois de todos os outros métodos falharem. A ocupação dura há 75 anos. Todas as negociações falharam. Com qualquer tipo de violência? Não, apenas com a dose necessária de violência..A dose necessária é discutível. No Congo depois de um massacre dos colonos a Bélgica negociou a retirada e a independência, salvando-se muitas vidas. O mesmo aconteceu no Quénia. Em Angola, no Norte, um massacre de colonos levou Salazar a pretender "defender-se" o que levou à perda de milhares de vidas e à derrota militar de Portugal. A descolonização fez-se na mesma mas com custos muito mais elevados em termos de vidas e património..Os colonos israelitas sabem agora que nem o exército mais poderoso da terra os pode proteger. Sabem que não estão tranquilos. Sabem que a única solução que os pode defender só pode ser encontrada através de negociações sérias com os palestinos. Que terão de sair dos colonatos. Que terão de deixar que o Estado Palestino se constitua..Se os políticos israelitas enveredarem por essa alternativa muitas vidas se pouparão. Se persistirem na alternativa militar o sofrimento será muito maior mas, como o exemplo de Portugal mostra, no final serão derrotados. Compete à comunidade internacional, incluindo Portugal, aconselhar Israel a tomar o caminho certo. Esse é o verdadeiro Humanismo. O que salva vidas humanas, palestinas e israelitas..Por último uma declaração de interesse. Sou português. Herdeiro de uma cultura em que a influência árabe, que predominou por cá durante séculos, é relevante. O meu apelido à Almeida, claramente de influência árabe. Sou Humanista, pugno pela Justiça. Tenho amigos judeus, solidarizo-me com o seu sofrimento às mãos do nazismo alemão. Detesto a hipocrisia. É, natural, pois, que o meu coração bata pelos palestinos e pela Paz no Médio Oriente..Sei que esta posição não segue o mainstream, nem a corrente de pensamento dominante. Mas é a minha. E quero expressá-la com honestidade e franqueza.