Os avanços da extrema-direita europeia: um novo normal?

Em abril, num total de 199 lugares, Viktor Orbán passou a contar com 135 eleitos no Parlamento húngaro. Nas Legislativas de junho, o partido de Marine Le Pen saltou de 8 para 89 deputados. Há cerca de três semanas, o partido ultradireitista Democratas Suecos conseguiu 20,5% dos votos e a coligação conservadora de que faz parte obteve a maioria na Assembleia Nacional da Suécia. Agora, em Itália, a extrema-direita e os seus aliados conseguiram eleger cerca de três vezes mais deputados e senadores que o centro-esquerda. O partido de Giorgia Meloni, o grande vencedor destas eleições, passou de 4% dos votos em 2018 para 26%. Esse partido, Fratelli d"Italia, foi o mais votado, apesar de as suas raízes serem de inspiração fascista.

A esta lista pode acrescentar-se o partido no poder na Polónia (Lei e Justiça), o Vox em Espanha, que já é a terceira força política no Congresso dos Deputados, a Alternativa para a Alemanha (AfD) e outros, incluindo o Chega.

A extrema-direita está a ganhar terreno no espaço europeu. Surge, assim, uma questão muito direta: o que leva os eleitores a votarem por Meloni ou pelos seus aparentados, nestes diferentes países? Personalizo e digo Meloni, como diria Orbán ou Le Pen, ou mesmo Ventura, porque estes partidos são, de um modo geral, construídos à volta de uma personagem política, que encabeça a agremiação e procura fazer coincidir a imagem do partido com a do líder. Ainda agora, Fratelli d"Italia nos mostrou este facto: o nome da dirigente aparece primeiro e é escrito em letras mais gordas do que o nome do partido. O partido é uma mera câmara de eco, que existe apenas para repetir e amplificar a mensagem do chefe. Nestes partidos extremistas não existe um diretório político. O líder é o pastor de um aglomerado de carneirinhos, ao qual se misturam alguns lobos esfomeados de poder.

Para responder à questão, creio poder dizer que se vota nessa gente por três razões principais.

Porque eles são ultranacionalistas e profundamente conservadores, numa altura de incertezas, de medos coletivos e de grandes confusões em termos de valores culturais e sociais. As fronteiras nacionais e a tradição oferecem, a muitos eleitores, um refúgio que eles não descortinam nos espaços mais vastos, do tipo UE, nas alianças entre países ou nas instituições multilaterais.

Também, porque esses partidos encenam pôr em causa as elites, incluindo os oportunistas da política, mostrando, ao mesmo tempo, roupagens de ocasião em defesa dos cidadãos comuns. Giorgia Meloni insiste, frequentemente, nas suas origens proletárias, para sublinhar que é uma das nossas e não o produto das classes tradicionalmente dominantes e de nome sonante.

Ainda, porque os partidos que representavam o protesto, o descontentamento social, desapareceram da cena política, como é o caso dos comunistas por essa Europa fora, ou passaram a fazer parte do centro moderado, dentro ou às portas dos governos. Já os novos movimentos de protesto, à esquerda, gastam demasiado tempo com questões comportamentais, que interessam apenas a certas franjas sociais, e não dão uma atenção suficiente aos problemas do quotidiano dos mais vulneráveis. São, na realidade elitistas de um outro tipo, uma pequena burguesia intelectual desconectada de quem tenta sobreviver no labirinto suburbano da vida.

É assim que se cultiva e crescem as Meloni de hoje. O simplismo das soluções que propõem faz o resto.

Os italianos votaram como melhor lhes pareceu. O que me preocupa, enquanto europeísta, não é a visão da futura primeira-ministra. Parece ter a astúcia política suficiente para compreender que uma cadeia de confrontações com Bruxelas não beneficia a Itália. E que o apoio à Ucrânia é no interesse de todos nós. Também não vejo grandes problemas do lado de Sílvio Berlusconi, que deverá ficar tranquilo com a presidência do Senado. Preocupa-me, isso sim, Matteo Salvini, um xenófobo militante que desconhece o que significa o realismo político. Aquilo que agora parece uma aliança estável, para uma legislatura - coisa inédita na Itália moderna -, tem imensas fragilidades internas. Que serão agravadas pelas fraturas existentes no país e pelos problemas que a UE tem pela frente. Veremos.

Conselheiro em Segurança Internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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