Os autodidactas da realidade

Nunca vi nada assim..." "São imagens indeléveis... inacreditáveis." "Estamos a testemunhar algo histórico." Não foi a maior ou sequer a mais interessante das várias dissonâncias que pontuaram a tarde televisiva de quarta-feira, mas foi talvez a que mais realçou a sua natureza de tarde "televisiva": o facto de o comentário na CNN ser uma reprodução exacta das mesmas coisas que o comentário na CNN diz quatro ou cinco ou dez vezes por ano. Se é verdade que algumas das imagens que o espectador da CNN estava a ver eram de facto "inacreditáveis" e "históricas", também é verdade que algumas das coisas que o espectador da CNN estava a ouvir eram repetições de coisas que já tinha ouvido noutras ocasiões - o incêndio em Notre-Dame, estátuas a cair ao chão ou um dos múltiplos ciclones que fustigam anualmente a costa da Florida.

Eram os mesmos multiplicadores semânticos, o mesmo delírio autopropulsionado que tenta blindar com uma pose de choque um óbvio entusiasmo profissional, a mesma retórica de retrospecção que vai caucionando a sua própria exorbitância como se já estivesse no futuro a olhar para trás. É um modo que se tornou comum na cobertura televisiva de certo tipo de eventos: a procura febril do momento simbólico e da síntese visual (a queda do muro, a queda da estátua, a queda das torres - qualquer coisa que possa "significar" outra queda). É menos reportagem do que redacção de almanaques em tempo real.

O momento em questão - a invasão do Capitólio por uma multidão - facilitou a aplicação deste modo retórico (mais, certamente, do que rajadas de vento em Miami), mas também pareceu estranhamente inadequado para descrever a sua substância. A imagem, por exemplo, de um homem em tronco nu, coberto de peles e com um par de chifres na cabeça, a sorrir no palanque do Congresso enquanto amigos lhe tiravam fotografias: essa imagem pode ser muita coisa ("histórica", "indelével", etc.), mas a primeira coisa que é é "absurda". O que se passou na quarta-feira em Washington foi uma das situações visualmente mais cómicas na era da televisão. Esta verdade incontestável devia ser incompatível com - ou pelo menos atenuada por - algumas das suas consequências materiais, nomeadamente o facto de ter causado pelo menos cinco vítimas mortais (quatro protestantes e um polícia). Mas, mesmo aqui, a realidade não pareceu querer colaborar com a seriedade de qualquer projecto emocional: uma das vítimas foi electrocutada pelo seu próprio taser; outra, que morreu espezinhada pela multidão, tinha participado no protesto empunhando uma bandeira com a legenda "Não me pisem". É preciso ser um sociopata para não achar isto terrível; é preciso um coração de pedra para não achar isto cómico.

O resto da retórica empregue pela procissão de comentadores que foi acudindo à CNN - palavras como "sedição", expressões como "tentativa de golpe de Estado" - pareceu igualmente desajustada ao momento. Chamar ao que se passou uma "tentativa de golpe de Estado" faz os acontecimentos parecerem em simultâneo mais sérios do que são e, encaixando-os numa categoria familiar, menos radicais do que foram. Um golpe de Estado, tenha ou não sucesso, tem objectivos políticos, e nada do que se passou no Capitólio pertence sequer ao domínio da política.

Nisso, os invasores têm muito em comum com a pessoa em nome de quem foram abrir portas, tirar fotografias e roubar material de escritório. Trump, como já deve ser óbvio para muita gente, tornou-se presidente dos Estados Unidos por acidente. Nunca teve qualquer programa ideológico: todas as suas posições reaccionárias foram reflexos provisórios (uma função da sua resposta mecânica a aplausos ou silêncio quando discursava; ou das horas que passou a ver televisão); e nunca teve qualquer ambição política mais ampla do que "ganhar eleições": não para conquistar poder, mas sobretudo para ser elogiado por tê-las ganho. Passou quatro anos a fazer discursos - sobre o esplendor dos seus triunfos, a humilhação dos seus adversários, a potência de muitos autoclismos - e a monitorizar vários ecrãs para ver o que dele iam dizendo. Nunca se interessou por qualquer outra pessoa além dele - não o suficiente para conseguir ser, por exemplo, o tipo de fascista que alguns apoiantes fascistas queriam que ele fosse.

Alguns destes estariam entre os invasores do Capitólio, mas seriam uma clara minoria. O grosso da multidão era composta por turistas no mundo da ideologia. O que têm não é "política", mas um grito, e uma afinidade falsa e efémera com alguém que pareceu, durante quatro anos, ecoar o seu grito, na televisão. Não conseguem traduzir as emoções intensas, perplexas e incompletas que sentem para actos políticos, portanto traduzem-nas para barulho e para espectáculo.

O The New York Times de dia 7 trazia uma breve peça sobre outra das vítimas: a única alvejada a tiro dentro do edifício, pela guarda do Capitólio. Chamava-se Ashli Babbitt. Era uma veterana da Força Aérea que se retirara em 2016, antes de sequer ter direito a reforma. Tinha comprado uma empresa de acessórios para piscinas e contraído um empréstimo a taxas de juro tão desastrosas (169%) que depressa deixou de o conseguir pagar. Mais ou menos na mesma altura em que se afogava em dívidas, passou a deixar uma efusiva pegada de opiniões online: sobre eleições roubadas, sobre uma pátria atraiçoada, sobre depravadas elites satânicas que matam crianças e governam o mundo em segredo.

Uma ideologia coerente, por mais falsa, imperfeita ou perigosa que fosse, teria sido capaz de lhe explicar a natureza das suas dificuldades: condições económicas estruturais, más escolhas pessoais, emigrantes, que quer que fosse. Mas como não encontrou uma ideologia, foi uma não-ideologia que a encontrou a ela. Recebeu os factos que recebeu, filtrados pelo prisma da sua conveniência, e teve de construir a realidade sozinha. Depois foi a um centro de soberania, para entrar num programa de televisão e para levar um tiro no peito. É o risco derradeiro de toda a improvisação autodidacta, e também é a extensão lógica da política que não é política, e de toda a retórica que se define como anti-sistema: o de construir por acidente outro sistema, mais absurdo, mais perverso, mais caótico, e que ninguém sabe como funciona.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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