Há um desalento de fim de férias que afeta a escrita e faz o cronista entregar-se à procrastinação ou desesperar de vez..Nesse estado de espírito, opto por apresentar hoje ao leitor (e aos meus exigentes editores) uma súmula dos artigos que pensei escrever, que poderia ter escrito e que a preguiça dos longos dias de verão fez que ficassem no mundo das coisas não realizadas, sempre mais belas e conseguidas do que tudo o que possamos realmente fazer..Sobre o Afeganistão, espantou-me ver como a crença na liderança pelos Estados Unidos de uma frente unida e militante das democracias no mundo (e ai de quem pense na autonomia estratégica da Europa!) sobreviveu a esta demonstração prática de que o realismo político se sobrepõe sempre na prática dos estados ao idealismo missionário. Assim como Estaline abandonou a revolução mundial para defender os interesses nacionais da Rússia (como De Gaulle sempre chamou à União Soviética), em todos os tempos a ponderação dos interesses reais dos Estados Unidos no mundo veio refrear os intervencionismos wilsonianos, fossem estes reais ou cobertura de outras estratégias..Mas não escrevi esse artigo. Via os meus amigos a esforçarem-se por integrar o que se passava no quadro da lógica desse império do Bem que eles veem no mundo, do mesmo modo que a "astúcia da história" servira para justificar todos os pactos Molotov -Ribbentrop. Via a esquerda americana, que eu estimo e respeito, aplaudir o fim da intervenção (a questão não é que ela deveria ter fim é como deveria ter fim). Via pessoas que admiro pela inteligência acreditar em potências essencialmente bondosas e missionárias da liberdade... e desisti. O sol estava alto, o calor obrigava ao mergulho e as minhas ideias não faziam falta ao mundo..Enquanto me enxugava, voltei à poesia. Reli Eliot e a sua proposta de definição do que é um poeta menor. Para Eliot, o poeta menor é aquele que está destinado a ser lido em excertos nas antologias, sendo o poeta maior aquele de quem vale a pena ler a obra toda. Mas penso que falta aqui um dado, por assim dizer, subjetivo: poeta maior é aquele que acredita firmemente ser um poeta maior (desde que, é claro, a sua obra dê razões objetivas para assim se pensar). Lendo a excelente biografia de Fernando Pessoa por Richard Zenith, confirmei quanto Pessoa acreditou desde o princípio (com momentos de desalento que nunca puseram em causa essa convicção profunda) nessa sua condição de poeta maior, missão que ele tinha o terror de não ser capaz de realizar, por razões humanas, demasiado humanas..Quem, entre nós, nos últimos anos, teve a mesma convicção íntima e soberana da sua grandeza? Jorge de Sena, é claro. Por isso (e não só, bem entendido) o tenho como o maior poeta do século XX português, ao lado de Pessoa. Essa certeza interior do seu destino faz parte do perfil do poeta maior, é uma sua condição constitutiva..E depois de Jorge de Sena, só em Herberto Helder vejo vingar uma crença em si próprio tão firme e sem estados de alma, embora envolvida numa aura que ele se dá de bruxo ou de xamã, herdeiro que foi do surrealismo..A nossa geração é demasiado crítica e cética para que qualquer um dos seus melhores poetas, Nuno Júdice, Joaquim Manuel Magalhães ou António Franco Alexandre, possa acreditar sinceramente ser um poeta maior. Terá essa dúvida de si, que qualquer poeta hoje tem de inevitavelmente se pôr, efeitos na grandeza da sua obra? Estaremos assim condenados, perdidas as ilusões, a perdermos também a grandeza?.Mas também não escrevi este artigo. Será que estes nossos poetas afinal não se querem e creem poetas maiores, no segredo dos seus corações?.Deixei assim cair estas questões na melancolia do meu fim de férias..Diplomata e escritor