Orgulhosamente só

Parece que já foi há muito, mas faz agora um ano e pouco que Filipe Nyusi tomou posse para o segundo mandato como presidente moçambicano. A cerimónia, na Praça da Independência, foi "à americana", mas com muito calor. Tendas gigantescas montadas debaixo do olhar de Samora Machel, milhares de convidados, uma dúzia de chefes de Estado, outros tantos de governo, sobretudo africanos, embaixadores e altos dignitários, tudo como deve ser. E, claro, Marcelo, o único presidente da União Europeia presente, de regresso ao país que considera a sua segunda casa. Marcelo teve a companhia de Santos Silva numa viagem presidencial que mostrou o enlace entre o ministro dos Estrangeiros e o Presidente, entre São Bento e Belém, que rendeu elogios rasgados e cumplicidades públicas entre ambos.

Nessa altura, já Cabo Delgado vivia dois anos - repito, dois anos - de horror e tortura, de milícias armadas, de violações, pilhagens, mortes e destruição pelo estado islâmico.

Na cerimónia, à americana, o presidente moçambicano praticamente ignorou o que se passava. Confrontado pelos jornalistas não moçambicanos, disse na altura que em breve a "situação"» estaria controlada. Marcelo seguiu o mesmo guião. Ofereceu ajuda, mas não se quis meter, obviamente, em "questões internas". Santos Silva lembrou o clássico: que Portugal "acompanha a situação" e que está "disponível para ajudar o governo de Moçambique" e pouco mais.

Ninguém quis falar muito do assunto porque o dia era de festa, a viagem era de festa, as pazes com a Renamo estavam para ser seladas já sem Afonso Dhlakama. Tudo corria bem a Nyusi. A cerimónia, feita naqueles moldes e naquela escala, tinha como função "projetar" Moçambique na região e no mundo, como país seguro, livre de guerras civis, pacificado internamente, com "vontade de crescer economicamente e de se tornar um lugar bom para investir". Na ocasião, o líder moçambicano referiu que havia dignitários dos quatro cantos do mundo, precisamente para recordar que a aposta era global e que todos eram bem-vindos, desde a América Latina ao Extremo Oriente.

Ao mesmo tempo, "no norte", aldeias inteiras eram tomadas pelo daesh, mulheres violadas, crianças mortas, jovens aliciados a tornarem-se milicianos em favor da causa do islamismo radical. O território era fácil de explorar, por diversas razões: trata-se da região mais pobre e abandonada de um país já de si pobre e abandonado. O desemprego e a falta de perspetivas, o baixo investimento público, a falta de infraestruturas e de oportunidades são como fogo na pradaria para convencer os "jovens" a mudar de lado.

Maputo sabia disso e ignorou.

Outros não ignoraram, mas foram, digamos, pouco firmes.

Lavaram as mãos, "oferecendo" ajuda.

Mas oferecer é diferente, bem diferente, de influenciar, de aconselhar, de insistir, de chamar à razão um líder que afirmava não precisar de ajuda para derrotar "o inimigo".

Passaram três anos e, finalmente, as imagens - sempre as imagens - que começaram a chegar "do norte" mostraram aquilo que já todos sabiam: o êxodo em massa, a morte, a destruição, uma parcela de um país soberano nas mãos de milícias estrangeiras, numa luta que não é religiosa, nem santa, nem inocente. É pelo controlo dos rubis, e do gás, que os franceses da Total (porque será?) tão bem sabem explorar.

Como acontece sempre em países como Moçambique, só quando começaram a morrer estrangeiros é que "a situação" se tornou "insustentável". Nyusi continua a dizer que só quer ajuda para "formação". Portugal vai enviar tropas para formar. Os chineses, que são donos de grande parte de África, calados; os franceses, que exploram o gás, inquietos; e, aparentemente, serão os Estados Unidos a voltar, depois de terem abandonado a região, quando deixaram de precisar do gás que ajudavam a explorar.

O falhanço político e diplomático da CPLP, a ausência da União Africana, a passividade da União Europeia e a lamechice das Nações Unidas são tão responsáveis pelo que está a acontecer como o presidente de Moçambique, natural do norte do país, antigo ministro da Defesa e que quis estar "orgulhosamente só". Mas, como está a 2700 quilómetros de distância, não sente o cheiro a morte, a pólvora, a queimado, a fome e a miséria. E porque a zona é controlada pela Renamo, e Nyusi não é bem-vindo à terra natal. Continua disponível para aceitar o tal "investimento estrangeiro" para o tal país "novo e pacificado" com que ele sonhou, mas que, de facto, não existe.

Jornalista

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