Opinião pessoal (CI) sobre Bissau tropical nos anos 80

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Uma vez Presidente, a partir de 14 de novembro de 1980, Nino Viera depressa conseguiu a separação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Com etnias, culturas e religiões distintas, os povos dos dois países apenas admitiam identidades partilhadas através da figura de Amílcar Cabral, o fundador do partido comum: PAIGC.

O país estava confrontado com a pobreza extrema da população, a par da fragilidade das infraestruturas em todos os setores. Ora, no seguimento da Independência da Guiné-Bissau, a saída das Forças Armadas Portuguesas demostrou a imensa exiguidade de recursos essenciais em todas as áreas, incluindo da organização do Estado, já que, no tempo colonial, quase toda a Administração Pública dependia do apoio dos militares.

Ao contrário do que aconteceu em outras colónias, os investimentos portugueses tinham sido insignificantes em todos os domínios. Só por meio de doações e empréstimos (Banco Mundial) provenientes da cooperação (bilateral e multilateral) foi possível assegurar o funcionamento do sistema de saúde, a educação, mas também ampliar as instalações portuárias, construir nova aerogare, alcatroar estradas, modernizar as comunicações, desenvolver as pescas, o comércio, o parque hoteleiro, etc. Até o antigo Hospital Militar ficou rapidamente inativado porque se afundou nos terrenos pantanosos onde fora construído...

Estou em crer que a insignificância do património edificado durante séculos de ocupação portuguesa estaria associada à diminuta colonização (em termos da pouca expressão de colonos). A emigração para Angola ou Moçambique teria sido mais atrativa do que para a Guiné. A este propósito, um diplomata da nossa Embaixada disse-me que os portugueses residentes a seguir à Independência não chegariam a 200.

Em Bissau, nos anos 80, muitas mercadorias de primeira necessidade não eram alcançáveis, mesmo por cooperantes ou diplomatas. A moeda nacional (o Peso) não tinha valor. Quase tudo faltava. Tudo, incluindo a energia elétrica fornecida pelo velho gerador da cidade. Os cortes que aconteciam todos os dias, sem exceção, eram motivados por repetidas avarias ou por falta de combustível.

Apesar das inúmeras dificuldades, a vida era tranquila. Pacata. Belíssima.

A descoberta do processo de construção ex novo de um Estado que tinha conquistado a Independência há poucos anos, representou, para os cooperantes que ali trabalhavam, um fascínio. Um tempo único.

Em Bissau, as rotinas do dia a dia tinham encantos: convívios e jantares em casa de uns e outros, a música, as danças, os sabores das ostras e dos camarões ou dos frutos tropicais. Inesquecíveis.

(Continua)

Ex-diretor-geral da Saúde

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