A narrativa política está a dividir a zona euro

As narrativas são importantes. Um amigo avisou-me uma vez para não usar a palavra "narrativa" porque era uma maneira enviesada de dizer "histórias". Mas as narrativas são tipos especiais de histórias. Elas são os enredos que contamos uns aos outros, até acreditarmos neles.

Tenho acompanhado as narrativas sobre a integração europeia nos maiores Estados membros da UE com uma incredulidade crescente. Uma das causas da vitória do brexit foi a linguagem do euroceticismo e a falta de uma contramensagem inteligente. Histórias semelhantes estão agora a dividir a zona euro.

Um conhecido colunista político do Der Spiegel referiu-se recentemente aos italianos como mendigos que não têm a decência de agradecer. Por trás desse insulto vergonhoso, há uma crença muito difundida entre os alemães de que eles estão a financiar a UE, e a Itália, em particular. Mas a verdade é que a Itália é um contribuinte líquido para o orçamento da UE, gere excedentes no seu saldo orçamental primário e na sua conta-corrente, e nunca beneficiou de resgates alemães.

Outra conversa comum na Alemanha, mas também em muitos países de língua inglesa, é que a França é um caso económico bicudo. Poucos divulgadores dessa ideia parecem conscientes do facto de que o desempenho económico da França é semelhante ao da Alemanha desde a criação da zona euro há quase 20 anos.

O que é particularmente chocante a respeito destas narrativas espúrias não é apenas o desprezo e a ignorância que refletem, mas o modo casual como elas são montadas. Elas fazem parte do folclore comum e são tidas como verdadeiras porque toda a gente diz o mesmo tipo de coisa há anos.

Esta tendência pôde ser observada no Reino Unido durante o período que antecedeu o referendo do brexit. Se é dito às pessoas para associarem a palavra "Bruxelas" a "burocrata" durante duas décadas, como ficar chocado quando elas votam para se libertarem da odiada burocracia?

A lição que eu tiro do brexit é que as narrativas moldam a política. O governo populista de Itália não é um acidente eleitoral, como os comentadores políticos italianos moderados nos querem fazer acreditar. É o que acontece quando uma desaceleração económica prolongada põe o eleitorado contra o sistema. A Itália costumava ser um dos países mais pró-europeus. Segundo o último inquérito do Eurobarómetro, é agora o mais eurocético.

As narrativas também são importantes na análise política. Aqui enfrentamos uma crise diferente, a da autocensura. No auge da crise da zona euro, fui sumariamente convocado para fazer parte de um grupo de especialistas para ajudar a desenvolver ideias. Lembro-me bem da declaração de abertura de um economista alemão, que anunciou que o grupo não deveria sequer considerar propostas que o governo alemão já havia rejeitado. Era uma referência a uma eurobond mutualizada, o "aquele cujo nome não deve ser pronunciado" das discussões sobre a política da zona euro. Ao ler um recente relatório de 14 economistas franceses e alemães sobre a zona euro, que surpreendia pela falta de ambição, tive uma sensação de déjà vu.

Conheço muitos economistas que, em privado, concordam com a afirmação de que a zona euro requer um ativo seguro mutualizado. Mas quando põem os seus nomes em relatórios sobre o assunto começam a falar como políticos.

Se o realismo for o nosso guia, como deveria ser, então a realidade da zona euro deve ser tudo o que importa. O argumento a favor dos títulos mutualizados é que, sem eles, o sistema financeiro da zona euro nunca poderá ser estabilizado. A zona euro é uma união monetária em estado de crise semipermanente.

Eu entendo o argumento de que as fronteiras políticas devem ser respeitadas. A resolução da crise da zona euro é sobre o compromisso e a adoção de segundas ou terceiras melhores opções. Mas estremeci quando ouvi comentadores políticos dizendo que Angela Merkel estava de parabéns quando finalmente deu a sua resposta a Emmanuel Macron sobre a reforma da zona euro.

A chanceler alemã disse não a quase tudo o que o presidente francês propôs. A única concessão significativa é uma facilidade de empréstimo de curto prazo para países em dificuldades, mas em condições que provavelmente serão inaceitáveis para Itália em particular. Não ouvi ninguém a tentar sequer explicar como é que isso poderia ajudar a reduzir a instabilidade.

O mesmo é válido para a ideia dos 14 economistas de criar uma eurobond sintética através da securitização da dívida. Esse é o mesmo método que foi usado para criar os instrumentos financeiros tóxicos na década anterior. A narrativa é semelhante ao que era então. É-nos dito que os riscos aparentemente não estão correlacionados. Só que a forte movimentação paralela dos rendimentos dos títulos italianos e gregos sugeriria o contrário.

O único antídoto conhecido para narrativas enganosas como essas é dizer a verdade. Atualmente, a maior ameaça à zona euro é a combinação tóxica dos pregadores do ódio com aqueles que não ousam dizer a verdade aos poderosos.

The Financial Times Limited

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